Imagine there’s no countries

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Algumas das mutações do trabalho deste início de milênio são surpreendentes. Ancorados no presente, pensamos o futuro com as categorias do passado. Poucos atentam para onde estão indo as modalidades tradicionais do emprego e do trabalho autônomo, mas é bem possível que o trabalho na forma que conhecemos no século XX esteja a caminho dos museus e dos livros de memória. Com ele irão as avelhantadas instituições, legislações, técnicas e experiências que o escoltam, preservam e sufocam.

Os indicadores de tendências das formas e vínculos de trabalho são, sobre vários aspectos, inquietantes. Ao que sugerem os números, estamos caminhando para uma equalização online das oportunidades globais. Um mundo em que os trabalhadores qualificados viverão longe dos centros econômicos mais desenvolvidos. Em que o deslocamento físico tanto na demanda como na oferta de trabalho será substituído pelo deslocamento tecnológico.

Uma fatia importante do trabalho qualificado já é, hoje, teletrabalho. A criação e desenvolvimento de softwares, a instalação e gestão de redes, a atividade lojista, a redação e tradução de textos, os serviços administrativos, as várias modalidades de design, o atendimento a clientes, os esquemas de vendas, os serviços contábeis, etc. cada vez requerem menos presença física.

A oDesk, a maior contratante mundial de serviços online, estima que neste ano que finda os seu contratados trabalharam 8,5 milhões de horas, um crescimento da ordem de 70% sobre o ano passado. Não é o montante das horas trabalhadas, mas o seu incremento que levanta questões que não se colocavam no último século. Como regular esta forma de trabalho? Quem pagará os impostos e aonde, se impostos forem pagos e se “aonde” ainda tiver algum significado econômico?O que será do dinâmico gerente? E do laborioso assessor? A quem adularão? A quem humilharão? O que acontecerá com os deficientes tecnológicos? E com os inabilitados online? Estarão condenados à labuta física e burocrática, à manutenção de robôs e nutrição de computadores?

Países em que o trabalho online é fator importante na economia estão adotando medidas esdrúxulas para controlá-lo e extorquir-lhe alguma receita fiscal. O governo de Bangladesh, por exemplo, decidiu classificar o trabalho online como “rendimento comercial de exportação”, livre de impostos. O sistema anterior, que o tributava como “remessa de empresa offshore” não funcionou. Em outros países as tentativas regulatórias e arrecadatórias, ao que parece, fazem água e naufragam comicamente.

Pelo lado da oferta não é o número oportunidades, muito menos as dificuldades de regulamentação que estão revolucionando tudo o que se fez e pensou sobre o trabalho no último século. O que está mudando são os trunfos, as credenciais, aquilo que é necessário para conseguir um bom contrato. A idade, o sexo, a cor da pele, a nacionalidade deixaram, obviamente, de serem critérios no mundo online. O talento, o descortino e a capacitação efetiva estão em alta exponencial. A se manter a tendência, fatores como a educação formal regida pela estupidez certificante estão com seus dias contados. Em 2012 os diplomas foram considerados relevantes somente para 6% (isto mesmo, seis por cento) dos contratantes online. O item mais pontuado foi a reputação: entregar no prazo e em conformidade com o pedido.

Ninguém pode ter do que vai acontecer nos próximos anos. Talvez o trabalho online não se generalize. Mas quem sabe Lennon tenha se enganado e, afinal, o sonho continue? Quem sabe ainda vejamos o trabalho livre do transporte, do ponto, dos escritórios, dos certificados, dos chefes, dos sindicatos e dos impostos?

Tomara.

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