O que é o trabalho – conceito

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Conceitos & DefiniçõesAfinal é possível dizer que é o trabalho?

O problema de definir o que vem a ser o trabalho corresponde ao questionamento do suposto de que a competência linguística deriva do conhecimento da descrição do significado do termo em relação ao seu objeto.

Existem quatro ordens de argumentação sobre as condições de possibilidade da expressão de um conceito:

1. o argumento do engano ou da ignorância em relação aos atributos;

2. o argumento do externalismo ou da impossibilidade de conceituar fora de contexto;

3. o argumento do limiar ou da impossibilidade de determinar os limites precisos de validade do conceito;

4. o argumento da tipicidade ou da percepção dos casos que recaem sob o conceito.

O argumento da ignorância diz que é possível aplicar corretamente um conceito e estar errado em relação aos seus atributos. Por exemplo: até a era moderna, acreditava-se que a varíola originava-se de miasmas no sangue, o que era incorreto, é claro, mas a identificação da doença e parte do tratamento dispensado aos enfermos, como a higiene e o isolamento, praticados a partir deste conceito errôneo, eram corretos. O argumento diz ainda ser possível ignorar a extensão do conceito [seus atributos e propriedades associadas] e aplicá-lo corretamente. Por exemplo: é possível tratar-se correta e eficazmente uma doença sem conhecer os seus elementos constituintes e a sua etiologia, como é o caso de medicamentos indígenas e dos remédios caseiros. Tanto que a pesquisa médica procede muitas vezes de forma inversa, conceitualiza as propriedades de um medicamento a partir dos efeitos dos tratamentos e não a partir de hipóteses sobre atributos de uma planta. Segundo este argumento uma definição completa e acabada do que vem a ser o trabalho é não só impossível, uma vez que o nosso conhecimento sobre o fenômeno não cessa de aumentar, como desnecessária.

O argumento do externalismo diz que uma definição baseada em atributos internos do conceito não tem como fornecer as condições necessárias e suficientes para sua aplicação. Se este fosse o caso, todos os modos de apresentação do conceito deveriam coincidir, o que nunca ocorre. Tomemos o caso do conceito /ser humano/. Não há quem discorde que os seres humanos formam uma espécie distinta das demais e de que pertencemos a esta espécie. No entanto, existem pessoas que incluem como atributos essenciais dos seres humanos o terem sido criados por uma divindade e terem uma alma imortal, como existem pessoas que pensam que os seres humanos são o resultado de partículas unidas por acaso e que desaparecem integralmente ao término de suas vidas. Não há como garantir que uma ou outra perspectiva é a correta, o que não impede que o conceito /ser humano/ seja inteligível. Segundo este argumento, uma definição cabal do conceito trabalho deveria incluir todas a visões e entendimentos históricos e por existir do termo, o que é uma impossibilidade, mas que não impede que discorramos sobre o fenômeno.

O argumento do limiar ou da impossibilidade de determinar os limites precisos do conceito parte da contradição de que uma vez que as teorias tradicionais sustentam que os conceitos têm estruturas definicionais, não poderia haver dúvidas sobre os objetos que recaem sob sua definição. O argumento é fraco. Estas dúvidas existem, até para casos simples, como o de saber se os tapetes são ou não são móveis, e são difíceis de serem resolvidas logicamente. Para muitos objetos, principalmente das ciências humanas e sociais (finanças são um tema administrativo ou econômico?), parece não haver uma linha clara de demarcação dos limites do conceito, mas uma franja, uma zona de penumbra. Segundo este argumento, a definição do conceito de trabalho seria sempre imprecisa e questionável.

O argumento da tipicidade ou, como foi denominado pelos psicólogos, o argumento do efeito típico, consiste em que temos a tendência a considerar alguns exemplares como mais típicos ou representativos de um conceito. As investigações empíricas levadas a efeito nos anos 1970 e 1980 demonstraram que tendemos a categorizar, por exemplo, /pardal/ como mais representativo de /ave/ do que /galinha/ ou do que /avestruz/. Além disto, a nossa categorização perceptual tem mais presteza e segurança em considerar correta a proposição “um pardal não é um peixe” do que a proposição “um pinguim não é um peixe”. E esta distinção na forma como percebemos os casos se dá independentemente do fato de sabermos perfeitamente que pinguins não são peixes, mas uma espécie do mesmo gênero de bípedes, emplumados, com asas, que põe ovos, que nidificam etc. Esta constatação empírica levou a psicologia a uma visão não tradicional, não filosófica, mas exclusivamente psicológica dos conceitos: a de que categorizamos os objetos tendo em mente um protótipo da classe de referência do objeto. O argumento da tipicidade implica que os atributos, aquilo que atribuímos como componente de do conceito trabalho, são fruto de condicionamentos mentais, não passíveis de estabilização lógica.

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