Mímesis ou criação

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Plato(216x340)

O que há de criação na economia criativa?

Esta poucas vezes formulada questão pode merecer uma resposta penosa. Tomemos, por exemplo, Platão. Lemos no Sofista (265b) que as artes produtivas (poetikai technai) são divididas em humana e divina, mas que existe outro tipo de produção, comum aos humanos e aos deuses, que não gera originais, mas (re)produz meras cópias. Esta é a mímesis, termo que em grego significa imitação, reprodução.

A mímesis humana se divide em mímesis icástica, cujas cópias são fiéis do modelo, e mímesis fantástica ou arte dos simulacros (phantasmata), cujos produtos são cópias ilusórias do modelo (Sofista 235d-236d; 265a e ss.) A mímesis identifica a arte do poeta, do pintor, do escultor e, por excelência, a arte do ator, que produz a cópia na sua própria pessoa.

As ideias de Platão às vezes são inversas daquelas que estamos acostumados. No Timeu (30c-d), por exemplo, o demiurgo divino toma como modelo (paradeigma) as criaturas inteligentes (zoön noeton) para criar o cosmos. Mas o seu raciocínio é claro e nada perdeu em valor. Na República (596b) vemos como o artesão divino cria o original, o “eidos” de uma cama, como o artesão humano (re)produz a cama física, uma mera imitação, mas que será o eidos do pintor que a (re)trata. Por isto, o artista, o pintor, não é, para Platão, um criador. Ele produz a cópia de uma cópia, uma contrafação desprovida de essência. É seguindo esta linha de raciocínio que Platão deixa clara a distinção entre o engenho criador (demiurgia) e o engenho imitador (mímesis).

O passar dos séculos ira assistir uma feroz discussão sobre estes dois conceitos e a quê se aplicam. Já Aristóteles irá chamar de miméticas as artes em geral, mesmo as artes como a da culinária, que, ao cozinhar os alimentos, imita e antecipa o processo de digestão. A mímesis a partir de Aristóteles não é só representação, mas o obrar similar ao da natureza. Outros, muitos outros, irão emprestar a um e a outro termo força e vigência distinta. Mas, seja como for, parece evidente que chamar de criativa a atividade econômica que hoje leva este epíteto é distorcer e estender um conceito para muito além do seu domínio.

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