Acadêmicos do Pontinho

CATEGORIA TR

Sobreviver ao trabalho

Olha aí, minha gente: aí vem o Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Pontinho.

Deu na Folha: Cresce número de artigos científicos ‘despublicados’ por fraude ou erro. 

O sistema de avaliação pseudo-acadêmica (respeitemos Platão) está fazendo água por todos os lados. A obrigação de obter os pontinhos para progredir profissionalmente nas escolas e universidades emulou um sistema primeiro corrupto, depois fraudulento.

O sistema que já era vicioso – com três imoralidades aceitas como “normais”: 1) me cita-que-eu-te-cito; 2) o aluno escravo, (você-faz-e-eu-assino); e, 3) o compadrio das comissões, comitês, etc. Desde o caso Sokal, lá se vão décadas, pelo menos quatro outras safadezas vem sendo fartamente documentadas: 1) a estatística “criativa”; 2) o texto ininteligível; 3) o recozimento de artigos; 4) a pura invencionice.

Conforme a imprensa internacional tem divulgado – e a reportagem da Folha repercute – nem mesmo as publicações mais sérias estão isentas. O pecado, aliás, não está nas revistas, nem nos editores, nem mesmo na maioria esmagadora dos docentes-pesquisadores. Está no sistema, que já nasceu torto, mal parido e indutor do desregramento moral.

A maioria dos escândalos, denúncias e “despublicações” ocorre no campo das ciências naturais. É que no campo das ciências humanas e sociais a coisa é mais difícil de ser ajuizada. Como replicar o “experimento” que só é possível em ambiente incontrolável? No caso específico do tema do trabalho, o que salva é que qualquer profissional que tenha contato direto com a realidade das organizações percebe a fajutice de parte dos artigos e a ociosidade da grande maioria dos demais, enfim, a evidência da esplendorosa inutilidade das publicações científicas que aí estão.

Apesar de tudo isto ser sabido, poucos estão dispostos a reagir. A sois-disant academia preferiu adotar a linha explicitada, ou denunciada, por Vaihinger, que na sua filosofia do “como se” (Vaihinger, Hans; The philosophy of “as if”, a system of the theoretical, practical and religious fictions of mankind; London; Routledge) sustentou que tomamos as representações como se fossem verdades, como se não fossem ficções. Vivemos como se não fôssemos morrer, amamos como se o amor não fosse acabar, etc. Para Vaihinger, um kantiano, as coisas são assim por necessidade vital de ordem e de sentido. Ao que tudo indica a necessidade de sobreviver na “academia” também entra nesta conta: se aceitam as indecências do sistema como se não houvesse alternativa.

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1 comentário

  1. Prof. Hermano, estimulante sua provocação para um debate sobre os paradoxos da publicação acadêmica atual. Se o produtivismo tem contribuído para a disseminação mais intensa de novos conhecimentos, também traz dúvidas quanto à relevância da produção acadêmica, os padrões “éticos” estimulados por esse produtivismo, e a transformação de um ambiente de dúvidas e debates para uma orientação à publicação como um fim em si mesma. Como assegurar uma produção acadêmica adequada não contaminada por um mero taylorismo intelectual? Como reintegrar (desejável?) os papeis de pesquisador, professor e orientador, quando a formação dos alunos – talvez o ponto mais nobre e gratificante da atividade acadêmica – pode ser percebida como um tempo que concorre com aquele destinado à publicação? Como reincorporar a centralidade da dúvida ante o conhecimento frente às metas e avaliações? Precisamos certamente de mais debate.

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