O arcano sincrônico: em prol de uma abordagem etológica do trabalho.

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Sobreviver ao trabalho

O ano da graça de 2014 ficará marcado na história da ciência como aquele em que, depois de um longo e penoso afã, os etólogos Steven Portugal e James Usherwood[i], da Royal Veterinary College, UK[ii], demonstraram a razão das formações em V na sociedade das aves migratórias.

Utilizando sensores de última geração, Portugal e Usherwood, provaram que a posição de cada membro do grupo e a sincronia de batidas das asas proveem condições aerodinâmicas para que gansos, pelicanos e íbis-eremitas consigam viajar quilômetros nas épocas de migração com um baixo gasto de energia.

Para os menos avisados a descoberta pode não parecer sensacional, mas vem muito a calhar. Vem impulsionar a etologia (ethos, maneira de ser + logia, ciência) no momento em que a nova disciplina transcendeu o estudo do comportamento social e individual dos animais para constituir-se em ramo da pesquisa que se ocupa das bases dos modelos comportamentais inatos e de condições que os deslancham, daquilo que vagamente denominamos de “instinto”.

As conquistas da etologia ainda são modestas.  Sabemos muito pouco sobre os arcanos dos papos inflados, dos traseiros multicoloridos, das danças malucas, dos acasalamentos mortais, dos suicídios em grupo, das condutas sincrônicas.

Particularmente temos uma dificuldade imensa para separar o que é aprendido e o que é instintivo na espécie humana.

Pouco estudado, a comportamento corporal no trabalho encerra aspectos que vão muito além da estética, da moralidade e da ergonomia. Revela (ou esconde) condições mentais dos indivíduos e dos grupos na sociabilidade forçada das organizações. O estudo dos impulsos demonstraria o que há de congênito e instintivo nas relações de trabalho. Porque uma coisa é o grupo natural, anterior até mesmo à família. Outra, completamente diversa, o grupo no qual exercemos a atividade laboral.

Raramente escolhemos as pessoas com quem compartilhamos nossa vida de trabalho. Não são nossos amigos ou pessoas com quem necessariamente tenhamos afinidades. Foram selecionadas por outros, de acordo com parâmetros estranhos a nós, segundo atributos de eficiência, de disponibilidade, de aparência, de nepotismo.

É com esforço que nos ajustamos aos colegas, como é com esforço que nos ajustamos aos vizinhos que os azares da geografia e da economia nos atribuíram. Aprendemos a execução dos artifícios necessários à convivência imposta pela civilidade. Escondemos nossos sentimentos, disfarçamos quem verdadeiramente somos e o que pensamos.

Tudo isto é cultural e bem sabido. Gentes de outras terras e de outras épocas agem de forma diversa.  Mas há comportamentos humanos no trabalho que não são culturais, que são (ou seriam) instintivos. Não voamos em formação, mas temos condutas próprias da espécie que têm uma importância decisiva para o entendimento do fenômeno do trabalho. Talvez a mais misteriosa delas seja a sincronização das condutas.

Sabemos que a música tem origem no ritmo marcado do trabalho do barqueiro, do agricultor, do homem primitivo. Desde os primórdios da nossa existência como espécie ritmamos para tolerar os padecimentos da lida, para ordenar as energias, para coordenar o grupo. A regularidade dos sons e dos movimentos tem explicação funcional. Mas carecemos ainda de explicação fundada para fenômenos como o da sincronização instintiva. O mistério da sincronia reside no caráter inevitável, não refletido, não aprendido, das condutas cadenciadas.

Se o corpo defende-se dos estímulos externos – fechando os olhos à luz intensa, vestindo um casaco quando faz frio – aos estímulos internos não se pode fugir. Podemos voluntariamente não nos alimentar, mas não podemos deixar de sentir fome, ou de nos apaixonar, ou de bocejar, ou de, gregariamente, sincronizar. Em muitas instâncias somos como os vagalumes que quando se reúnem formam um padrão simétrico de lampejos[iii]. Como os sapos, que coaxam em uníssono. Camuflagem, conflito, coincidência?

Os etologistas não chegaram ainda a concluir se os ritmos animais são ritualísticos, comunicativos ou se são, simplesmente, uma forma instintiva de poupar energia. A sincronização é um fenômeno da natureza, tanto que a compartilhamos com outras espécies. Sua ocorrência é randômica e sem razão aparente. Não conhecemos suas causas, embora saibamos da sua existência. Ninguém tem ideia do que há na psique do homem natural que nos leva a compassar, sejam manifestações físicas, como a sincronização do bater de palmas, sejam manifestações psíquicas, como ocorre (documentadamente[iv]) com colegas que sincronizam seus períodos menstruais.

Uma pista talvez esteja na divisão do tempo de trabalho. Os antigos diferiam os dias fastos dos nefastos. Já haviam notado que há dias em que todos nos mostramos satisfeitos e contentes, como sabiam que vivenciamos dias que são simultaneamente mortos para todos, em que o trabalho é penoso e infrutífero. A sincronização também ocorre nos dias comuns. Há momentos – diferentes para cada microcultura – em que simultaneamente sentimos necessidade litúrgica de nos comunicarmos, seja nos cafezinhos, seja pelo telefone, seja nos corredores, seja digitalmente. As épocas são igualmente sincronizadas. Há aquelas de anomia, como há épocas de insatisfação genérica imotivada. Sem razão que dispare a impaciência, os ânimos se exaltam, a produtividade esmorece. Declara-se um basta amplo e genérico. Sincronicamente nos indignamos, nos manifestamos, ocupamos a praça, abandonamos a lida, proclamamos o Estado de Última Gota. Por que agimos assim, se as coisas não estavam melhores antes? Por que aqui? Por que agora? Por que sincronicamente?

 

[i] (2014).Upwash exploitation and downwash avoidance by flap phasing in ibis formation flight; Nature; 505,399–402; (16 January 2014)

[ii] http://www.rvc.ac.uk/

[iii] Os padrões são complicados. Cf: Maynard, A and Merritt, DJ (2013). Synchronization of circadian bioluminescence as a group-foraging strategy in cave glowworms. Integrative and Comparative Biology 53(1): 154-164

[iv] McClintock, M. K. (1971). Menstrual Synchrony and Suppression. Nature 229 (5282): 24

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