Burnout – a ameaça sutil

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Sobreviver ao trabalhoO stress é o que leva o organismo a disparar um processo de adaptação decorrente de um desequilíbrio entre as solicitações feitas ao trabalhador e os recursos de que dispõe para responder a essas solicitações. Dentre as consequências do stress no trabalho estão a depressão, a acedia, e a síndrome conhecida como burnout.

A depressão, que os gregos conheciam como melancolia (de mélas,aina,an, o negro, a escuridão da alma) é hoje epidêmica. Tem como sintomas a anedonia, a apatia, a perda de capacidade cognitiva e a fadiga, podendo induzir até ao suicídio.

A acedia (a negação do kêdos,eos-ou, do cuidado) é uma prostração que tem origem em uma enfermidade que tocava particularmente os monges medievais na sua fé irrestrita e na dedicação à Igreja. Segundo os relatos que subsistem, os monges mais piedosos, subitamente, sem nenhum aviso, passavam a experimentar um sentimento de vazio, de angústia, de descrença e caiam na negligência de tudo, mas principalmente de si mesmos. No século XIX a acedia foi denominada de spleen (o baço, órgão do tédio para os antigos) e no início do século XX de neurastenia, a inatividade enfadonha.  É similar à crise de fé e à preguiça mórbida que acomete subitamente os idólatras do trabalho (os nossos work alcoholics).

A depressão e a acedia estão presentes no burnout, a mais discutida patologia decorrente do stress no trabalho na atualidade. O termo tem uma gênese sombria. Foi utilizado nos leprosários para designar o estancamento da hanseníase após a perda dos dedos das mãos e dos pés. Significava a consumação da irreversibilidade, a liquidação da existência válida. A combustão do burnout queima os que investem demais no trabalho, os que tentam dar conta da velocidade alucinante das mudanças de orientação, da multiplicidade de estratégias, das metas absurdas.

Descrito modernamente por Freudenberger (1974) como um estado de esgotamento físico e mental, a síndrome é constituída pelo sentimento de necessidade angustiante de trabalhar mais, seguida de um sentimento de vazio e de isolamento. Caracteristicamente o enfermado não aceita necessitar de ajuda, e recai em um estado de despersonalização: atitudes cínicas, comportamento autodestrutivo, profunda autodepreciação.

O burnout decorre de uma injunção contraditória (Chabot, 2013). A nossa sociedade e as nossas organizações privilegiam o progresso útil em detrimento do progresso sutil. O progresso útil é quantificável e linear. Foi tornado indispensável à subsistência material. O progresso sutil é qualificável, mas imprevisível. Compreende a elevação do espírito pela educação, o cuidado de si, a criatividade. É essencial à vida do espirito, à autorrealização. O reequilíbrio entre o progresso útil e o progresso sutil é o desafio dos que pretendem escapar ao burnout e chegar razoavelmente sãos ao termino da vida laboral.

 

Freudenberger, H. J. (1974), Staff burnout, Journal of Social Issues, 30(1), 159-165.

Chabot, P. (2013), Global Burn-out, Paris, Presses Universitaires de France.

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