A liquefação do trabalho e a dissolução de sua medida.

Trabalho & Produtividade.

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A fórmula renascentista de John Locke tomada por Hannah Arendt no já longínquo ano de 1958 “o trabalho de nosso corpo e obra de nossas mãos[i] inaugurou uma era de sofisticação na composição de indicadores e de índices de produtividade. Mas será que ainda faz sentido hoje? Será que o labor repetitivo, próprio do animal laborans, que é o do operário, do burocrata, do lavrador, do motorista, daquele que produz para o consumo, é facilmente distinguível do obrar descontínuo, próprio do homo faber, que é o do criador, o do fabricador de objetos, daquele que produz o que será usado?

A distinção de Arendt data do auge da racionalização, do período de glória do taylorismo e do fordismo, da ascensão do toyotismo. Não parece que tenha mantido a força explicativa que diferenciou e especializou os mecanismos de aferição do resultado do trabalho. Quando as mãos se tornaram instrumentos secundários não só para moldar a matéria, mas para operar os fluxos de informação, de que serve esta distinção? É bem possível que tenha caducado. No entanto, seguimos utilizando fórmulas vencidas, tornadas inúteis pela dramática redução da durabilidade dos bens produzidos, tornadas inapropriadas para medir a informação, o bem mais desejado do momento, que é de consumo imediato e armazenamento eterno.

Com o advento da economia digital, a aferição da produtividade do trabalho se tornou nebulosa. Os computadores e os gadgets, extensões indispensáveis dos cérebros e mãos, alargam, tolhem e, principalmente, distorcem o cômputo do esforço produtivo. O vínculo precário com as organizações, as variações crescentes da remuneração por resultados e a mobilidade profissional desfavorecem o planejamento e a mensuração do trabalho. As especializações e a complexidade das atividades laborais (tente explicar o que você faz para seu avô ou para uma criança) acrescentam ainda mais empecilhos à aferição da produtividade.

No momento em que o homo faber não participa mais da edificação do mundo, no momento em que se exige do animal laborans  habilidades cognitivas, a distinção de Hannah Arendt parece ter perdido sentido. Afinal, um jornalista, um professor, um estratego, são fabricantes de saberes ou processares de informação? O que resulta do seu trabalho? É possível que o mal-estar laboral da atualidade derive desta impossibilidade de aferir. Como diria Bauman [ii], é possível que derive da frustração de se ganhar o sustento esculpindo a água.

UTILIZE E CITE A FONTE.
[i] Arendt, Hannah (1999) A condição humana Rio de Janeiro; Forense Universitária

[ii] Bauman, Zigmunt (2001). Modernidade Líquida; tradução, Plínio Dentzien;  Rio de Janeiro: Jorge Zahar

 

 

 

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