Rastejando para subir

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6049006_0cebecbb2c_mTendo constado que o réptil chega ao cimo dos rochedos com facilidade enquanto o cavalo mais fogoso jamais o consegue, Paul Henri Thiry, Barão d’Holbach (1723-1789) descreveu a regra de conduta para ascensão organizacional em termos categóricos.

Explicou que o homem que galga as posições na corte, ou em qualquer organização formalizada, deve ser uma entidade compósita: arrogante por cortesia, pródigo por avareza, audaz por covardia, deve ter a cabeça de vidro e o coração meio ferro, meio lama.

Afável, polido e afetuoso, deve abafar os apelos da razão, subjugar a individualidade até alcançar a insensibilidade. Sua escalada é paga em complacência, assiduidade, bajulação e baixezas. Para manter os dirigentes em bom humor é necessário que se sacrifique ao tédio, que anule seu amor próprio e sua natureza. Muito importante é não ter opinião. A sagacidade ascensional consistindo em pressentir a julgamento do líder, o que pressupõe desenvolver o conhecimento da alma humana, o domínio do estomago e o da fisionomia.

É característica dos regimes formalizados, seja qual for a sua índole, o seu lugar e o seu tempo o serem servo assistidos. Quem os denuncia é visto não como libertário, mas como subversivo, como agitador ou como anarquista. Talvez por isto, o Barão tenha tido o bom senso de morrer antes de ter-se publicado, no ano da graça de 1813, pela casa editora F. Buisson de Paris o opúsculo intitulado “Ensaio sobre a arte de rastejar para uso dos cortesãos”, no qual expõe em detalhes as condições para se conseguir o bom posicionamento intra-organizacional, aqui resumidas.

O “Ensaio”, uma facécia filosófica extraída dos “Manuscrits de feu” e outros escritos anarco-ateístas valeram a Paul Thiry e à sua descendência, tanto a biológica como a intelectual, o ódio das direitas empedernidas, dos comissariados canhotos e dos burocratas de estrita observância. Mas nada impediu que legasse a regra que, edulcorada e eufemisticamente, é reproduzida nos livros, artigos, blogs e quejandos de aconselhamento laboral: para subir rasteje, rasteje, rasteje.

Referências

D’Holbach (2010). Essai sur l’art de ramper à l’usage des courtisans. Paris. Éditons Payot et Rivages.

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