Spinoza: o trabalho e a inovação em 1677

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SpinozaConsta da sexta das “proposições sobre a origem e a natureza das afecções” do livro da Ethica ordine geometrico demonstrata de Baruch Spinoza, que é próprio de todas as coisas persistirem no seu ser. Na sétima proposição lê-se que isto, que persevera, é a essência. Na oitava, que a essência é atemporal. Na nona, que a consciência é uma destas essências atemporais que lutam para persistir.

Infere-se destas proposições que o corpus de saberes profissionais, a coletividade das consciências dos que detém o conhecimento técnico, tende à perdurar. Resiste tanto à degradação quanto ao progresso. A certeza da inevitabilidade de uma e de outro não abranda a força emocional que se inclina para a conservação do já sabido. Os detentores do conhecimento laboral e os que dele se apropriam se aferram à paixão pela identidade, aos cultos de origem, às referências míticas a pessoas e a acontecimentos.

Lê-se na décima oitava proposição da mesma parte da Ethica que somos afetados pela imagem do passado e pela imagem do futuro como se estivessem presentes. A tensão entre estas duas inexistências reconstrói obstinadamente a ponte entre as fantasias da memória e as ilusões do futuro. Consolida e projeta o pensamento único, o preconceito dogmático, a uniformidade. Desatentos para a clivagem entre interesses pessoais, sociais e organizacionais, indiferentes à tutela ideológica e a mercantilização predatória, as consciências laborais recusam-se a se abrir para o novo.

Na sexagésima sexta das proposições que tratam da servidão humana, Spinoza sustenta que “sob o governo a razão” preferimos um bem futuro maior a um presente menor, que preferimos um mal menor presente a outro maior no futuro. Decorre daí que a adequação ao que vem, ao futuro passa pelo autoconhecimento, pelo acesso à economia dos saberes, pela integração às recém-chegadas modalidades relacionais do trabalho.

Da quinta das proposições consta que se uma coisa é capaz de destruir outra, elas não podem subsistir no mesmo sujeito. O que implica em que para que a identidade subsista como tal é preciso que a antecipação vença a memória. Spinoza não explicou, não porque não pudesse, mas porque não tratou dessas coisas, mas é fácil inferir que “sob o governo da razão” o trabalhador faria melhor se se negasse ao repouso intelectual, se se recusasse a dissolver sua consciência no estabelecido, se resistisse à apropriação do seu interesse pessoal e social.

A mente sofre quando tem ideias inadequadas, diz a primeira proposição da terceira parte da Ehtica. Infenso às superstições que ainda persistem, Spinoza recusou inúmeras ofertas de emprego, incluindo posições acadêmicas, preferindo seguir polindo lentes a perder a liberdade intelectual. A coerência entre o gesto e a proposta faculta mores geometrico deduzir das definições, lemas e escólios que nos legou o juízo de que a evolução do trabalho se dá tanto pelo confronto com as ideias, instituições, grupos e pessoas coexistentes, como pela abertura para o que vem, para o futuro, para o novo.

Spinoza, Benedictus de, 1632-1677. (2002) Complete works – Spinoza; translated by Samuel Shirley and others; edited, with introduction and notes, by Michael L. Morgan; Hackett Publishing Company, Inc.; Indianapolis I Cambridge

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