A hora-trabalhada: origens.

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esqueleto1A regulação do tempo é uma das formas de mais atrozes de desqualificação do trabalho. É certo que a cronometragem incrementa a produtividade, mas como outras modalidades formalistas de controle, não a retém em níveis constantes. Por que seguimos medindo a hora trabalha, se desde a antiguidade sabemos disto é um destes mistérios que os temerosos das forças do além hesitam em remexer.

A história da mensuração temporal do trabalho é obscura. Data da virada do primeiro milênio. Consta que, na época, o monge beneditino Gerbert d’Aurillac (950-1003), um cientista capaz de decifrar o movimento das estrelas e o sentido do voo dos pássaros, celebrou um pacto com o demônio, que lhe teria ensinado as artes interditas da mecânica. Foi assim que Gerbert pode construir o primeiro órgão hidráulico, o primeiro astrolábio e uma cabeça de cobre que sabia responder a todas as perguntas. Foi assim que pode inventar o relógio.

Os mecanismos como o relógio são desde sempre pensados equivocadamente como espelhos de uma ordem universal. A imposição desta suposta universalidade ao trabalho é originária da “Idade das Trevas”. Além disto, não se sabe mais nada. Também não se tem certeza sobre o invento capaz de medir o tempo é de fato do monge de Aurillac, mesmo porque os pactos demoníacos não costumam deixar rastro. O que se sabe com certeza é que em algum momento antes do século XII o tempo passa a ser medido efetivamente. Isto porque nos parcos registros documentais de 1220 há uma menção a uma viela de relojoeiros na cidade de Colônia.

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De modo que pelo menos desde o décimo segundo século, a medida da jornada, do dia de trabalho, foi perdendo o privilégio de ser a forma temporal de regular o esforço produtivo. Lentamente a jornada natural foi sendo substituída pela hora mecânica. Quando Descartes, no século XVII fala em autômatos naturais, a inflexão já se verificou. Não mais se pensa o trabalho a partir do corpo, da natureza humana, mas da máquina, do homem feito engrenagem.

Dentre todas as formas de desumanização, o governo do tempo é a mais imperdoável. Prova disto é que Gerbert d’Aurillac, muito embora tenha conseguido ser eleito papa Silvestre II no enigmático ano de 999, nunca foi amado, quanto mais santificado (São Silvestre é outro). Morto em remorsos, esquartejado pelos próprios cardeais que nomeara, o papa Silvestre segue diabolicamente marcando o tempo. Ainda que a Igreja não confirme, desde o final do primeiro milênio, boas e diversas fontes atestam que toda a vez que um papa está para morrer os ossos de Silvestre II chacoalham na tumba. Ressoam macabramente pelo Vaticano, contabilizando as horas e os minutos que restam aos pontífices que lhe sucederam.

Riché, Pierre (2006). Gerbert d’Aurillac, le pape de l’an mil. Paris. Fayard

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