Economia e fantasia

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adam_smithEm uma noite de inverno anterior ao ano de 1776, em Glasgow, na Escócia, um amável professor de filosofia moral imaginou que se em um povo de caçadores custa habitualmente duas vezes mais tempo e sacrifício para matar um castor do que uma camurça, naturalmente um castor valerá ou se trocará por duas camurças.

É sobre esta postulação de Adam Smith (Kirkcaldy, 1723 — Edimburgo, 1790), que dá início ao sexto capítulo do livro primeiro de A riqueza das nações[i], que repousa grande parte da teoria contemporânea sobre o trabalho. E, no entanto, esta alegoria não passa de uma especulação inventiva sem fundamento antropológico.

De fato, não se tem notícia de que o tempo ou a dificuldade para obter um bem tenha servido ou sirva de base de atribuição de valor entre povos primitivos[ii]. Isto seria irrelevante se os avatares do conceito econômico do trabalho não se mantivessem desde então ancorados a esta fábula.

O exemplo de Smith teve o dom, ou a sina, de reduzir à categoria de trabalho toda atividade destinada a obter bens de consumo. Mais do que isto: reduziu o valor do trabalho ao tempo e à dificuldade requeridos para se obter um bem. Uma noção que repercutiu na conhecida formulação de Marx de que os valores das mercadorias são diretamente proporcionais ao tempo de trabalho empregado na sua produção e inversamente proporcional à força produtiva do trabalho empregado[iii].

A fantasia antropológica de Adam Smith cobra o preço de todo mito: obscurece a realidade ao se por no seu lugar. Nem só o trabalho primitivo – intermitente, esporádico, autofrenante (cessa imediatamente ao atingir seu objetivo) – é desvinculado do tempo ou da dificuldade. Historicamente, é desvinculado do tempo e da dificuldade toda a concepção de trabalho anterior às relações capitalistas de produção. Até então o trabalho era entendido como uma atividade descontínua, com vinculações mágicas e depois religiosas.

Ninguém sabe quanto tempo levou para que as gárgulas, anjos e santos medievais fossem esculpidos, nem quanto custou para encarapitá-las nos tetos e beirais das igrejas. Isto não interessava. Estas esculturas não foram feitas para uso ou para troca. Nem mesmo foram feitas para a elevação dos humanos. Se hoje realizamos acrobacias, nos fatigamos e nos arriscamos para apreciá-las é porque não foram feitas para nós, mas para que Deus nas alturas as visse.

Depois da Renascença a cristandade perdeu esta fé intensa nos cuidados de Deus para com os mortais. Talvez porque tenha se descoberto desvalida, talvez porque a prometida redenção ainda demore. Não é o caso da fé no conceito do trabalho fruto da imaginação adâmica. Passados mais de dois séculos da sua formulação, o paralelismo entre esforço, tempo e preço continua a viciar a ótica econômica do trabalho. Uma ideia que que não pode ser atribuída ao uisge beatha, mais tarde conhecido por whisky, já que até 1880 este álcool não teve difusão fora das granjas dos highlanders que o fabricavam[iv].


[i] Smith, Adam (1975). An induiry into the nature and causes of the wealth of nations; London; Encyclopaedia Britannica Inc.

[ii] Cartier, Michel (2001) org. Le travail et ses représentations; Paris; Éditons des Archives Contemporaines.

[iii] Marx, Karl (2013) Salário, preço e lucro. Trad. Edmilsom Costa; São Paulo; EDIPRO

[iv] MacLean, Charles (2005) Scotch Whisky: A Liquid History, London, Cassell Illustrated

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