Arendt: o sentido do trabalho

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Uma gradação dos modos que intervimos no mundo que data da Antiguidade greco-romana foi sistematizada por Hannah Arendt em “A condição humana”[1]. Em uma primeira clivagem, Arendt separou a vita contemplativa da vita activa. A vita activa designa toda espécie de envolvimento em três modalidades distintas: a do trabalho-labor, voltado para a sobrevivência física, a do trabalho-obra, a serviço da fabricação de objetos que permanecem, e a ação, no sentido do agir intencional, voltado para as relações morais e políticas essencialmente livre, as atividades não impostas como uma necessidade.

A escala das ocupações ascende no sentido da contemplação. O esforço produtivo que não gera uma obra marca o nível mais baixo desta escala. O trabalho será tanto mais significativo, mais digno, quanto mais se afastar do labor, de uma simples forma de subsistir. Seguem-se o esforço produtivo que gera um produto, um objeto que permanecerá, e a ação, o agir gratuito do ser que se realiza na e pela vida social.

Conforma a ação o ato intelectual – ajudar, convencer, ensinar, guiar, mas, também, interditar, impor, cercear, ameaçar…. A ação, na acepção filosófica do termo, é um conceito complexo. Aglutina sob a palavra latina actus,us duas noções gregas distintas. A de energéia e a de prâxis[2].

A energéia refere à atividade constante. Opõe-se a facère, o fazer, a atividade com objeto imediato. É a noção que permitiu a São Tomás de Aquino (De potentia, q1, a1)afirmar que Deus é “actus purus”, um poder infinito e eterno de impulsionar o mundo.

A segunda noção, prâxis, refere à atividade imanente de um sujeito humano (Platão, Menon, 98c). Isto é, a uma ação moral. Não o fazer (ergon), mas a fonte do fazer (Aristóteles, Política, I, VI, 1-4). É o oposto do sofrer, do padecer, da passividade.

A ação (um termo que seria mais bem traduzido por “agência”) é o que nos desembrutece, é o que faz de nós aquilo que Aristóteles denominou de “animal político”, um ser da polis, do convívio, da sociabilidade própria dos humanos.

No sentido greco-romano interpretado por Arendt, a significação do trabalho deriva do quantum de ação está posto nele. De modo que pouco importa em quê trabalhemos. Importa como trabalhamos. Se conseguirmos compreender e orientar a finalidade do nosso trabalho, se estabelecermos relações de respeito e aceitação, então o trabalho que realizamos terá sentido.


[1] Arendt, Hannah (1999) A condição humana – Rio de Janeiro; Forense Universitária.

[2] Cf. Peters, F. E. (1967). Greek philosophical terms; New York; New York University Press. & Fontanier, Jean-Michel (2002) Le vocabulaire latin de la philosophie; Paris; Ellipses

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