Entre contemplação e indolência

Trabalho & Produtividade

The Woman with the Stylus - Pompeii, Italy Roman

Na Antiguidade grega o trabalho, ou, mais propriamente, a necessidade de trabalhar era julgada indutora de indignidade.

Para os antigos, o que conferia humanidade era o raciocínio especulativo, a contemplātĭo. A contemplação ou, em grego, theoria [théa (através) + horós (ver)], era considerada o mais alto grau de conhecimento que se pode atingir, a conjunção da ciência e da sabedoria.

A contemplação não deve ser confundida com a elevação mística ou com a beatitude. Nem são seus objetos as coisas úteis, temporárias e contingentes. Os objetos do raciocínio especulativo são as coisas abstratas, imateriais, perenes. Objetos como os números, as designações, a figuras geométricas e, acima de tudo, os atributos imutáveis, necessários e eternos: os elementos da metafísica, da gnosiologia, da ética. A contemplação tem valor nela mesma. Não é um meio para atingir objetivos. É a reflexão que se destina exclusivamente a descobrir a verdade, único fim que realiza plenamente o ser humano.

Esta forma de ver pouco se alterou na Antiguidade romana. Sêneca criticou as vidas dissipadas na busca da riqueza, da glória e do poder. Argumentou, realisticamente, que se as necessidades materiais nos impedem de sermos contemplativos, não há razão que nos impeça de compensar a indignidade do trabalho com a sabedoria. Por que, perguntou, não organizarmos a vida para o máximo de tempo e dedicação ao conhecimento? (Da brevidade da vida).

Marca a forma de ver dos romanos a distinção de Sêneca entre dois tipos de conduta: a dos occŭpāti, os que trabalham e negociam na busca de bens sobre os quais jamais refletem, e a dos ōtĭōsi, que administram a sua vida com equilíbrio e sabedoria.

Os occŭpāti se agitam, sacrificam sua individualidade, formam laços (redes) de dependência uns em relação aos outros, conformam-se em serem elos, em não serem. Quando despertam para vida, quando e se acumulam as condições materiais para começar a viver, a vida já está no fim. A biologia e o intelecto decadentes já os impedem de fruí-la. “Jazem no seu leito, em plena solidão”. Descansam interinamente a espera do repouso definitivo.

O oposto dos occŭpāti são os ōtĭōsi, que não são os indolentes (pĭgĕr), mas os que têm controle da sua existência, os que se isolam da multidão e da vida laboral. Os ōtĭōsi dedicam o tempo que podem ao exame da própria consciência, ao estudo do mundo, aos exercícios espirituais e físicos, à prática das virtudes (excelências) e ao lazer. O ōtĭum, na acepção romana, não é a inatividade preguiçosa e estéril (dēsĭdĭa), mas a construção e a reconstrução de si e da relação com o mundo circundante.

Ao final da Antiguidade, a Igreja, ávida de dominação e fausto, matou a contemplātĭo e o ōtĭum. Santo Agostinho e as ordens monásticas deram o golpe de misericórdia no primeiro humanismo ao imporem a substituição da contemplação pela prece e do ócio pelo labor.

O crime é antigo, já prescrito, mas é importante recordá-lo para advertir que inexiste fundamento lógico ou argumento moral que impeça os que puderem de se voltar à contemplação e ao ócio, mesmo que, infelizmente, a maioria ainda deva sofrer o cativeiro do trabalho decorrente da necessidade material, mesmo que a minoria sobrante tenha que padecer sob a repreensão da moralidade arcaica da cristandade, que persiste na impostura de identificar a fruição da vida com a indolência.

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Seneca (sd). The complete works of Seneca, the younger, Kindle – Delphi Classics. On the shortness of life.

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