A mentira empiricamente demonstrada.

Epistemologia & Método

QuineEste texto que você lê agora não é um texto. Ou melhor, talvez seja, mas não há meio de provar que é.

Não resta dúvida que aí existem letras, palavras, frases, etc. que se destacam sobre um fundo contrastante. É perfeitamente possível medir sob diversos ângulos seus signos e seu conteúdo, tanto em observação direta como com a ajuda de aparelhos, de estatísticas,  de ….. Pode-se confirmar a observação adotando critérios rigorosos, fazendo controlar o experimento por pesquisadores independentes e se chegar à conclusão de que se trata efetivamente de um texto. Mas uma conclusão não é uma prova.

Como garantir cientificamente que os aparelhos funcionam bem? Que a amostragem é universalmente válida? Que os signos sobre o fundo fazem sentido? A incômoda verdade é que não será jamais possível provar de forma absoluta por uma experiência um fato simples como “isto que vejo diante de mim é um texto”. A prova demandaria uma cascata interminável de pressupostos e hipóteses sobre o que vem a ser uma letra, como as letras representam fonemas, como as juntando formam palavras, sobre o que é uma mensuração válida, sobre o qual o sentido do que se lê, sobre qual o sentido da palavra “sentido”, ….

No já distante ano de 1951, Willard Van Orman Quine (1908 – 2000) filósofo e matemático de Harvard, demonstrou – e não pode ser contestado – que a inferência empírica – esta mesma que as revistas ditas “acadêmicas” exigem – é dogmática. Evidenciou que a “comprovação com base em dados e fatos” não passa de uma crença. Não necessariamente uma crença ingênua, como a crença em Papai Noel. Mas, de qualquer modo em uma crença indemonstrável, como a crença na existência de um Deus.

O artigo de Quine, intitulado  “Os dois dogmas do empirismo”, removeu o verniz de “certeza”, de “absoluto”, de “universal”, de “provado”, que escondia a falácia da epistemologia empirista. Demonstrou que a “verdade empírica” e “verdade analítica” são empíricas e analíticas, mas não são verdades.

O primeiro dos dogmas que Quine aborda é o da crença generalizada de que existem verdades provadas pela experiência. Como vimos, mesmo os fatos mais banais, para serem provados dependem de séries de hipóteses e pressupostos implícitos que regressam ao infinito. O elementarismo, a posição do “positivismo lógico” segundo o qual uma hipótese isolada pode corresponder a um fato isolado, é falso, e é falso no marco do critério da própria epistemologia positivista. A infinitude, por definição, não “está posta”.

O segundo dos dogmas é o do “empirismo lógico”, oriundo do festejado Círculo de Viena. É a posição de que existem “verdades analíticas” extraídas da divisão de um conhecimento em partes, e de que existem “verdades sintéticas”, extraídas da associação de elementos disparatados para formar um novo conhecimento verdadeiro. Quine argumentou que as verdades analíticas ou bem são tautológicas (A=B ᴧ B=A) ou bem dependem de fatos, e os fatos, já vimos, não se provam. Já as verdades sintéticas ou bem dependem das analíticas – isto é, de tautologias ou de fatos não prováveis – ou bem são puramente lógicas, o que não as faz verdadeiras. Por exemplo, o princípio da não contradição que rege a lógica desde a Antiguidade (uma coisas não pode ser e não ser ao mesmo tempo), não é verdadeiro no campo da mecânica quântica, que admite que uma partícula pode, simultaneamente, ser e não ser.

O certo é que o salto entre os juízos sintéticos e os juízos analíticos se funda unicamente na necessidade de isolar o que há de convencional, de arbitrário nos juízos testáveis. É apenas outro artigo de fé. Além disto, a analiticidade não é suficiente para justificar – nos seus próprios termos – a lógica e a matemática como conhecimentos a priori. É dogmática no sentido de que uma afirmação do tipo “todos os solteiros não estão casados” não é verdadeira não só porque supõe uma sinonímia perfeita entre “solteiro” e “não casado” (que, obviamente, inclui os viúvos e os divorciados), mas porque requer uma definição do que vem a ser solteiro, não casado, todos, …. O mesmo ocorre em afirmações correntes nas pesquisas ditas científicas. Por exemplo afirmar “todos os empregados no setor A são morenos, e nenhum moreno trabalha em outro setor”, torna moreno logicamente idêntico (≡) a empregado no setor A, (os empregados nos outros setores seriam sinônimo de quê? De louro, de careca, de ruivo?) o que não faz sentido.

Quine, ou como era chamado pelos amigos, “Van”, foi um sujeito simpático. Usava uma boina basca para cobrir a careca. Ouvia a todos com paciência, mas não arredava pé da lógica. Por estranho que possa parecer, jamais abandonou o empirismo e os estímulos sensoriais como base de conhecimento. Só que cultivou um empirismo sem dogmas – o holismo -, que admite diversas explicações como verdadeiras e igualmente satisfatórias. O holismo é regido pelo principio de que não há verdades estanques, porque uma alteração no quadro geral provoca reposicionamentos que ecoam no discurso de toda ciência. 

Depois de Quine, os métodos empiristas baseados no critério da verificação, que desconsideram as linguagens e as teorias na atribuição dos significados e das significações, perderam adeptos, decaíram. Lamentavelmente, a epistemologia empirista vulgar – particularmente o quantitativismo trivial e o positivismo barato – continua infestando as mentes e corações. Mais os corações do que as mentes, diga-se.

O consolo é que, apesar insistência programática dos dinossauros acadêmicos, nada anulará o fato de que Quine, morto em 2000, seguirá alertando para a fragilidade do positivismo prêt-à-porter. Queiram ou não, o velho com a boina continuará sendo o espírito que previne sobre o desperdício de tempo e de talento de gente que se dedica à pesquisa “publicável”, talvez como você, que lê este texto. Se é que o lê, se é que isto diante dos seus olhos é mesmo um texto.

utilize

Quine, Willard Van Orman (2011). De um ponto de vista lógico. Nove ensaios lógico-filosóficos (incluindo “Dois dogmas do empirismo”). Tradução de Antonio Ianni Segatto. São Paulo. Unesp.
Quine, Willard Van Orman (2010). Palavra e objeto. Tradução de Sofia Inês Albornoz Stein e Desidério Murcho. Petrópolis, RJ: Vozes.
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