Diálogo de cegos: consolações para o trabalho perdido.

Perplexidades & Filosofia

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A reflexão lógica sobre a perda do emprego, sobre a aposentadoria indesejada, sobre o fim da idade produtiva, em nada ajuda a suportar a privação do trabalho habituado. Só a arte tem o condão de confortar ante as adversidades da existência.  Só a poesia – música das palavras – parece ter o poder de dar conforto ao espírito amargurado.

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Que me lembre, existem quatro diálogos consoladores entre os poetas cegos Jorge Luís Borges (1899 – 1986) e John Milton (1608–1674). Tratam da perda, da desvinculação em quatro chaves distintas. A primeira é evocativa, reporta ao tempo. A segunda é amarga, concerne à circunstância. A terceira é resignada, diz respeito à esperança. A última é ascética, refere ao autodomínio. Nenhuma deplora a privação da vista.

Primeiro Diálogo

Em “Uma Rosa y Milton”, Borges lamenta o decurso do tempo que os separa:

 

Una Rosa Y Milton

De las generaciones de las rosas 

Que en el fondo del tiempo se han perdido 

Quiero que una se salve del olvido, 

Una sin marca o signo entre las cosas

Que fueron. El destino me depara

Este don de nombrar por vez primera

Esa flor silenciosa, la postrera

Rosa que Milton acercó a su cara,

Sin verla. Oh tú bermeja o amarilla

O blanca rosa de un jardín borrado,

Deja mágicamente tu pasado

Inmemorial y en este verso brilla,

Oro, sangre o marfil o tenebrosa

Como en sus manos, invisible rosa.

 

O poema constrói uma ponte entre John Milton, morto em 1671,  e Borges, que escreve três séculos depois. A separação no tempo é remediada pelo imaginário: o lírico da rosa sanguínea, o épico da rosa dourada, o dramático da rosa marfim, o mistério da rosa invisível.

O consolo está no tempo corrigido, na lembrança que, a medida em que os anos passam, vai se apagando e idealizando. A imaginação, que restaura o olhar perdido. A memória e a fantasia fazem com que o trabalho desaparecido deixe o passado. Tornam presente o que já não é. O que, na verdade, nunca foi.

 

Segundo Diálogo

Nos anos 1970, em uma conferência sobre a cegueira, Borges fez um reparo à forma como se declama os quadragésimo primeiro e segundo versos do épico Samson Agonistes de Milton:

Sanson Agonistes [exerto]

61

Eyeless in Gaza, at the mill with slaves,

Himself in bonds under Philistian yoke.

 

Diz Borges que, ao contrário do costume, diversamente por exemplo do que fez Huxley ao intitular seu célebre livro, deve-se escandir os versos da seguinte forma: “Eyeless|| in Gaza,|| at the mill||with slaves,// Himself in bonds || under Philistian yoke”. Deste modo se assinala que existe seis circunstâncias deploráveis para Sansão: o ter sido cegado, o lugar em que se encontra, o trabalho que executa empurrando a mó como um animal, o estar entre forçados, o ser ele também um forçado, o estar sob o jugo filisteu.

Sansão, traído por Dalila, que lhe cortara os cabelos deixando-o fraco, se transformara em um escravo, obrigado ao trabalho infame, em meio à gente inferior, em lugar desprezível (Gaza fica situada na Filisteia, a oeste da terra hebraica de Canãa), sob o domínio de uma gente que odiava.

A consolação da perda advém do socorro da divindade, do Deus único dos hebreus.

Dito isto, cabe um reparo sobre o consolo divino. A história de Sansão e Dalila que consta do livro dos Juízes [16] do Tanakh judaico e do Velho Testamento cristão é uma aberração teológica. Postula um Deus vingativo e sectário. Um Deus indutor do fundamentalismo. Primeiro Sansão celebra um pacto privado, direto com Ele, para que lhe dê forças com o intuito de fazer guerra aos inimigos de Israel. Depois Ele permite que Sansão se case com uma gentia, a prostituta filisteia Dalila. Em seguida, restitui suas forças com o propósito declarado de vingança. No fim, consente que Sansão, tendo matado milhares de pessoas, se suicide.

O consolo para a circunstância desesperadora de quem perdeu o que tinha, no caso, é o da assistência divina. Muitos nela encontram conforto para a perda do trabalho, não importa que venha de uma divindade de moral discutível, como a da lenda bíblica.

Terceiro Diálogo

Uma observação incidental de Borges provê a terceira consolação para a quebra do vínculo do trabalho. Como as demais, procede de John Milton, da sua obra mais conhecida:  Paradise Lost, uma poetização em versos brancos do Gênesis a partir da queda de Lúcifer e do extravio de Adão.

Não recordo onde e quando foi pronunciada, mas diz assim: “não existe paraíso que não tenha sido perdido”. A frase não é uma boutade, mas uma trouvaille. Sintetiza a não consciência da felicidade presente.

O consolo aqui reside no esquecimento das privações passadas e na esperança das portas que se abrem para quem não cai na tentação de fixar sua vida na lástima da perda, seja a do paraíso, seja a do trabalho.

 

Quarto Diálogo

Que todo paraíso só o seja porque perdido pressagia anacronicamente o que Milton escreveu em Paradise Regained,  que encerra o ciclo das consolações.  Sequência de Paradise Lost, Paradise Regained é o relato – baseado no evangelho segundo Lucas – de como, no deserto, Jesus luta e resiste às tentações de Satã. Contrariando a lenda de Sansão, a chave do Poema está na ideia, cara à Borges, de que o poder sobre os outros, o poder de destruir, é uma fraqueza, uma ausência do poder sobre si mesmo:

Paradise Regained [exerto]

 

 (3:402-403) ….

Luggage of war there shown me – argument

 Of human weakness rather than of strength

…”

De modo que a quarta e derradeira consolação toca o ideal estoico do autodomínio como método para a superação das perdas.

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A filosofia requer concentração e inteligência. A poesia, disposição e afetividade. Uma ensina. A outra consola. Os poetas – mais do que os filósofos – suavizam a constante luta da consciência para conformar-se ante o absurdo das privações existenciais. Os poetas conseguem dizer o que gostaríamos de dizer, o que sentimos, mas não sabemos como.

O dialogo de dois poetas cegos separados no espaço e no tempo abrem a quádrupla possibilidade de devolver a esperança, de confortar a razão, de desanuviar a consciência turvada, de amenizar a existência de quem se viu privado do trabalho.

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utilize

Borges, Jorge Luis (1985). La ceguera, in Siete Noches. Madrid. Fondo de Cultura Económica.

Borges, Jorge Luis (1989). Una rosa y Milton - El otro, el mismo (1964), in Obras Completas vol 2. Buenos Aires. EMECÉ Editores.

Huxley, Aldous. (2010). Eyeless in Gaza (1936). eBook Kindle. Vintage Digital. New Ed

Milton, John (1999). The complete poems. London. Penguin Classics.
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