Kant: trabalho criativo ou vazio existencial

Perplexidades & Filosofia.

kantNa Antropologia (2006), Kant deixou escrito que a partir do momento em que tomamos consciência do tempo que passa sobrevém o horror ao vácuo (horror vacui), a sensação da morte lenta, da vida que se esvai.

É o sentimento de vacuidade que nos faz procurar as diversões, os prazeres, os passatempos, os jogos, a sociabilidade inócua. Mas logo nos damos conta que o desperdício do tempo vital não o substitui.  O ser humano preenche sua vida através de ações e não através de distrações. No lazer, na ociosidade, experimentamos uma “falta de vida”.

Em outra parte, Kant (1989) mostrou que o ser humano é um “fazedor de si”, um edificador da sua existência. O espaço e o tempo não são características inerentes ao mundo a nossa volta, mas maneiras segundo as quais a consciência ordena nossas experiências.

Admitir que a mente organiza a maneira como percebemos o mundo, isto é, como conceituamos o que percebemos e como vivenciamos o que conceituamos, não implica que possamos ordenar o mundo como quisermos. Implica em que podemos tentar uma superação das nossas limitações e procurar orientar a vida de outra maneira.

O que, segundo Kant, levaria a superar o tempo que transcorre e se perde no nada, o que levaria a preencher o vazio, o tédio (“a náusea diante da vacuidade”) da nossa da existência, é o trabalho. Mas há uma ressalva: não o trabalho por uniforme, mecânico, obrigatório, mas o trabalho criativo, orgânico.

A necessidade de trabalhar esconde os hiatos da existência, mas não os suprimem. O trabalho atende a uma necessidade material, e, desde que criativo, a uma necessidade vital: a de suprimir o vazio da existência.

Sem o trabalho criativo o ser humano não tem como dar conteúdo à vida.  Sem ele o ser humano degrada a sua humanidade. Sem ele não pode ser integralmente humano.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Kant, Immanuel (2006). Antropologia de um ponto de vista pragmático. Trad. Clécia Aparecida Martins. São Paulo: Iluminuras.

Kant, Immanuel (1989). Crítica da razão pura; Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão; Lisboa; Fundação Calouste Gulbenkian
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1 comentário

  1. Mestre,

    Outro texto excelente. Parabéns. O problema é saber qual é o trabalho criativo que esvazia o tédio. Pode ser conversar ou *flanêr* ou ler?

    Já estou de volta em Bogotá. Satisfeito de ter viajado e de estar de volta. Berlim continua bombando e a reunião foi ótima. Paris continua com o seu bolorzinho. Desapareceram várias lojas que compunham a minha visão de Paris: o café que eu frequentava quase diariamente, a minha papelaria favorita, a loja que vendia roupa de teatro. O clima na rua é por momentos tenso: grupos de três militares, armados pesadamente, quase em cada esquina. Dizem que o turismo caiu muito, mas eu vi hordas de turistas em todos os lugares conhecidos.

    Estive na P.U.F. De entrada me decepcionei. Local pequeno, com uns pocos livros em exposição. Até que vi funcionar a máquina produtora de livros. Aí percebi que simplesmente estamos em outra era. Vi várias lojas, entre elas un conjunto de cinemas, em obras e com um letreiro que diz “estamos nos reinventando”.

    Almocei com Armelle e Pierre que no dia anterior tinham chegado de Israel. Outro dia foi com a Florence e família.Jantei com meu amigo Ives Evrard (HEC, AIMAC). Todos preocupados, mas ativos e com projetos e, como sempre, muito gentis. Estavam mais interessados em que eu contasse minhas aventuras colombianas do que em falar dos musulmanos. Pierre dissertou sobre Israel mostrando que é quase um novo paraíso terrenal. Não gostou de que eu dissesse que tudo bem, mas que o país está em guerra permanente.

    Acompanhei toda a saga do ex e novo Ministério da Cultura e do resto do ministério Temer. Imagina ter que explicar tudo isso para atónitos auditórios inteligentes. Na Alemanha fui interrogado por turcos, ingleses, indianos, cambodianos, indonésios e muitos alemães. Todos eles conheciam bem o Brasil e todos achavam que o Brasil já tinha dado o grande salto. Na França, idem. Sem contar os e-mail de argentinos, mexicanos, espanhóis, etc. A sorte é que tinha mais quatro brasileiros e todos coincidiamos mais ou menos.

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    Abraço, também para a Regina, do Enrique

    2016-05-19 13:31 GMT-05:00 Hermano Projetos – Pensar o trabalho, o trabalho

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