Esquecendo o futuro.

Trabalho & Produtividade.

Editora Globo

Ilustração Indio San

O que está por acontecer corresponde diversamente ao futuro e ao porvir.

O futuro é o que ocorrerá dado o que sabemos sobre o passado e sobre o presente. O porvir (o que está por vir). É o sentimento informado (Derrida) de que haverá sempre na nossa vida o advento do impensado, o aparecimento do Outro, o que inclui a chegada outro em nós, as alterações do ego, que não antecipamos.

Em sendo o porvir fortuito e insondável, a sua consciência é contraproducente. Este o motivo de os expedientes de mobilização se fixarem no esquecimento do futuro. Sempre foi assim. A omissão do futuro é comum aos Vedas, aos filósofos da Grécia clássica, às utopias políticas, às religiões e seitas, às técnicas de produtividade contemporâneas. Todas as práticas de motivação buscam anular a tomada de consciência do porvir, apagar da memória o saber de que o imprevisível não é o improvável.

A cláusula doutrinaria de esquecer o que está por vir pode ter como base um futuro estabelecido (o Reino dos Céus, o socialismo imperante, o Milénio, …), pode estar lastreada na constatação empírica de que os futuros imaginados no passado não se realizaram ou, ainda, pode, ainda, decorrer da razão, da evidência lógica de que o futuro inexiste, de que o futuro, por definição, é o que não tem existência.

Qualquer que seja sua origem, a justificação do preceito de que se deve esquecer o futuro é a mesma: se conseguirmos não pensar no que vem, evitaremos as pré-ocupações, deixaremos de nos ocupar antecipadamente. Agindo e pensando para o agora, colocaremos de lado os temores e os anseios que defraudam a serenidade do espírito.

Espelhados nesta sabedoria milenar, os sistemas de indução à operosidade adotam o alheamento – a amnésia induzida – para que, com serenidade, se venha a produzir mais e melhor.

Bloquear a consciência do futuro do trabalho é uma das modalidades do duplipensar (doublethinking), a aceitação esquizofrênica de duas postulações contraditórias: a de que é preciso trabalhar com afinco é a de que é impossível saber o que acontecerá se o fizermos ou não.

O alheamento, como a alienação, convém ao cancelamento da ilogicidade do agir. No limite, o que se quer ver esquecido é o fato de que produzir mais e em menos tempo não preenche a vida, só dissimula o seu vazio.

As técnicas motivacionais do trabalho no século XX promoveram o esquecimento do futuro em duas grandes chaves. No campo societário, se esmeraram em omitir que trabalhamos para alcançar um quadro econômico-organizacional em um tempo em que já não estaremos vivos. No campo da individualidade, procuraram ocultar que trabalhamos para que um dia possamos não ter necessidade de trabalhar. Que o objetivo pessoal do trabalho é o de deixar de trabalhar.

Estas técnicas gerenciais são aparentadas às dos regimes totalitários. Às do nazismo e às do estalinismo. Visam extrair o máximo de sobretrabalho. No entanto, curiosamente, podem vir a ser auspiciosas. Dado que não existiremos objetivamente no futuro em geral, mas, subjetivamente, no nosso porvir particular, nada impede que o que foi trágico no século passado possa vir a ser benéfico para nós no tempo que vem.

Esquecendo as apreensões sobre o futuro do trabalho, talvez possamos nos beneficiar da economia técnico-digital, que permitiu retirar do esforço produtivo o caráter de domínio absoluto que tinha sobre a vita activa. Talvez possamos nos dedicar menos à vida profissional e mais ao cuidado de nós mesmos. Não nos ocupando do futuro do emprego, mas do porvier do nosso trabalho talvez possamos fazer coexistir a vita productiva dos modernos com a Bella Vita que Hegel fez corresponder à fraternidade da polis e ao espírito contemplativo dos gregos.

 UTILIZE E CITE A FONTE.
Derrida, Jacques & Roudinesco, Élisabeth (2001) De quoi demain… Dialogue. Paris. Fayard/Galilée

Gros, Frédéric (2013) É possível esquecer o futuro? in Adauto Novaes (org.). Mutações: o futuro não é mais o que era; São Paulo; Edições SESC SP.

Hegel, Georg Wilhelm Friedrich (1985). Fenomenologia del espiritu. Traducción de Wenceslao Roces. Madrid. Fondo de Cultura Económica. Pg. 61

Huxley, Adous (2006). Brave new world. London. Harper Perennial Modern Classics
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