A ordem do querer dizer.

Epistemologia & Método.

coruja

A previsibilidade do entendimento e da internalização dos signos é uma aspiração que está longe de ser alcançada. O que está fora de alcance não é somente a complexidade da mente humana, mas a sintetização computacional das interações sígnicas. Por mais que os devotos das epistemologias em vigor insistam, a equalização do processo de entendimento esbarra no distanciamento entre a recepção do percebido e sua compreensão.

Uma das maiores dificuldades epistemológicas nas ciências sócio humanas é a dupla tendência ao desvio conhecida pelas siglas “emic” (de fonêmica, a perspectiva fonêmica, a forma como se fala), que atribui valor à interpretação do informante, e “etic” (de fonética), em que a interpretação do observador é o que conta. Se na interação natural as distorções passam na maioria dos casos despercebidas – embora não haja quem não tenha a experiência de pessoas que se ofendem conosco sem que saibamos a razão – na investigação empírica estas distorções são extremamente problemáticas.

Em toda observação existem coisas que nos despertam atenção e outras que sequer – como indivíduos e como coletividades – percebemos. O pensamento, escreveu Heidegger[i], é condicionado por seu contexto e pelo humor, pela disposição do cogitante em relação ao cogitado. Aferir e documentar na modalidade e na disposição das ciências sócio humanas do Ocidente multiplicam os efeitos EMIC / ETIC. Proposições como a da neutralidade axiológica de Weber[ii], não têm como serem aplicadas neste nível. A triangulação[iii] e expedientes similares diminuem o risco perceptivo, mas não superam o fato de que não conhecemos as incontáveis variáveis presentes na internalização do fato social.

Houve a esperança – e muitos ainda têm esta ilusão – de que o tratamento estatístico pudesse lançar alguma luz sobre o fenômeno da recepção dos sígnos. Não foi o caso. A dificuldade é de outro teor, pertence a uma esfera lógica insuperável. Um paralelo ajuda a entender por que.

As possibilidades para as quatro primeiras jogadas de xadrez perfazem exatos 318.979.583.000 movimentos. Isto para cada um dos jogadores. Duas mentes, dois atores, que ordenam movimentos em um espaço reduzido. O xadrez é jogado com 32 peças que se deslocam segundo regras estritas, em um tabuleiro de 64 (8×8) quadrados. Multiplique-se o número de atores e as alternativas de jogadas, amplie-se o espaço de atuação e desregulamente-se tudo isto e teremos a quantidade de permutações e arranjos possíveis na troca de signos em ações como cumprimentar os vizinhos, entrar na fila do ônibus, sorrir para a moça bonita, ou falar ao celular. O total destas combinações possíveis é infinita ou, pelo menos, é maior do que o número de átomos no universo.

Ainda que a ciência possa calcular os bilhões de deslocamentos do jogo de xadrez e até possa vencer um Mestre com a ajuda de um computador, a ideia que temos de como a mente humana lida com esta quantidade de possibilidades é menos do que rudimentar. Os gestos, as expressões, os ícones, as palavras escritas ou orais são acolhidas e processadas pela mente humana de forma insondável.

Outra esperança de previsibilidade no intercâmbio de signos foi a da aplicação da Teoria dos Jogos à recepção sígnica. A Teoria opera a partir do conceito de racionalidade limitada derivada da imprevisibilidade das condutas sociais, das crenças ditas de segundo grau. Procura integrar o ponto de vista do outro sobre o ator, do protagonista sobre o antagonista e vice-versa. Uma realização notável para decisões elementares em ambiente extremamente restrito. Mas a sua aplicação em campos como o da governança, o das interações socioeconômicas, o das relações de poder no que toca às cognição e a interação simbólica é, logicamente improdutiva.

A memória afetiva e a memória factual, internalizadas pelas histórias sociais e pelas biografias, estão fora do alcance das epistemologias. Não há possibilidade lógica de antever o que um grupo de humanos interpretaria ante um estímulo sígnico não costumeiro. Temos que aceitar o fato – demonstrado por Wittgenstein[iv] – de que a compreensão humana se circunscreve aos “jogos de linguagem” de “formas de vida” limitadas no espaço e no tempo.

A mente humana não é um processador de subconjuntos definidos operando sequencias finitas. Não há algo como um meta-código ou uma tabela periódica que dê conta das possibilidades de significação. A consciência tem padrões e desvios de padrões. Não regras. Para além dos desvios das normas O transcorrer das biografias e as interações sociais alteram estes padrões continuamente de uma forma absolutamente randômica. A indeterminação e a irracionalidade da conduta humana violam as regras de representação e criam novas regras, além de novas representações. Desarticulam continuamente tanto os jogos quanto as teorias de recepção e internalização dos signos. Por isto estamos fadados a jamais saber com certeza se o que registramos foi o que foi dito e o que se quis dizer quando se disse o que se disse.

UTILIZE E CITE A FONTE.

[i] Heidegger, Martin (2009). Ser e tempo; Tradução de Márcia Sá Cavalcanti Schuback; Petrópolis Vozes.

[ii] Weber, Max (1991) A objetividade do conhecimento nas ciências e na política sociais; in; Sobre a teoria das ciências sociais; Tradução de Rubens Eduardo Frias; São Paulo; Moraes.

[iii] Blaikie, N. (1991). A critique of the use of triangulation in social research. Quality and Quantity, 25, 115-136.

[iv] Cherques, H. R. T.(2012) Conceitos e definições: o significado em pesquisa aplicada nas ciências humanas e sociais. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getulio Vargas.

 

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