Orwell e o crepúsculo do estamento impudente.

Ética & Credibilidade.

George Orwell photo portraitEm 25 de junho de 1903, há 113 anos, nascia em Motihari, Índia, Eric Arthur Blair.

Aventureiro, militante socialista, escritor e ensaísta, Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell, foi uma pessoa singular. Viveu o que pregou e pregou o que viveu.

Filho de uma família da elite da era vitoriana estudou em Eton. Para entender e escrever sobre as classes mais pobres, morou em favelas, trabalhou como operário e como mineiro. Viu de perto, como policial em Burma e como soldado na guerra civil espanhola, o descaso com os miseráveis e a derrota dos ideais mais nobres.

Eticamente rigoroso, Orwell conhecia a hipocrisia social a fundo. Observador, assistiu a ascensão e a queda dos gentlemen e dos dândis. Sabia como ninguém o que é a derrocada dos grupos de indivíduos com função social análoga, os “estados” ou estamentos.

Quando lemos qualquer dos romances de Orwell – desde Burmese Days (1934), passando por A Clergyman’s Daughter (1935), Animal Farm (1945) até Nineteen Eighty-Four (1949) – ou um dos seus numerosos ensaios e poemas, entendemos porque o desmoronar das empresas estatais e dos órgãos da administração pública deve ser atribuído, em igual medida, à avaliação estratégica incorreta e à impudência do estamento que as dirigem.

Fixados no primarismo da literatura do management, voltados para o imediato das dificuldades e das oportunidades, estes “estados” administraram, como seguem administrando, na tola crença de que águas passadas não movem moinho. Ignoram o que George Orwell fez figurar como lema do Partido do Big Brother: “Aquele que controla o passado controla o futuro. Aquele que controla o presente controla o passado”.

Orwell anotou de várias maneiras que o erro estratégico, o mal feito operacional e a transgressão moral, embora possam passar despercebidos, obrigam a um esforço, a um cuidado permanente, a uma vigilância constante. O processo de derrocada de um estamento angustia as pessoas, amargura as existências, tolhe iniciativas, toma tempo e recursos, obriga ao cuidado e à administração do passado.

O Big Brother nunca deixou de existir. Pode não ser tão evidente como foram Stalin e Hitler, pode ter tido boas desculpas, como o Serviço de Segurança norte-americano, pode ter sido bem intencionado ou mal intencionado, como Edward Snowden e o WikiLeaks parecem respectivamente ter sido, pode simplesmente estar aí, como a Web, ou pode surgir da honesta teimosia de um juiz federal de primeira instância, mas sempre alguém, pessoa ou grupo, para o mal o para o bem, segue vigilante.

Não há um pingo de moralismo no que Orwell escreveu. Apenas a constatação de que o futuro está – como sempre esteve – fundado não no feito, porque o presente já é sempre passado, não na projeção, porque o futuro é insondável, mas na conduta das pessoas aqui e agora. Ao cabo, é só ela que sustenta uma organização ou um estamento.

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