O executivo e o conatus de Spinoza.

Perplexidades & Filosofia.

O executivo contemporâneo, premido pela competitividade impositiva, vê-se constrangido a anular sua identidade na tentativa de ser mais do que o outro, de ocupar um lugar ao sol no lúgubre pináculo corporativo.

Dente da engrenagem desatinada em que as metas são ditadas unicamente pelos interesses menores de poder (liderança), de riqueza (salários e bônus), de status (a duvidosa respeitabilidade dos bem sucedidos), vê-se impelido a defraudar o tempo e o estatuto da introspeção.

A devoção à estética do momento distorce a natureza corporal, estafada em atos monotonamente repetidos na insalubridade das “academias”. A sociabilidade estiola, prostrada pelo convívio forçado com a banalidade intelectual e a desfaçatez afetiva. A opacidade das convenções, modismos e interesses corporativos arriscam constantemente a nulificação do espírito.

A máxima de Sócrates[1] de que a vida não examinada não merece ser vivida ressoa nas mentes executivas. Mas toda possibilidade de atualizar o cuidado de si é ameaçada pelo medo da externalidade falhada, da figura humilhada, do insulamento social. O pânico incutido reconduz o jogador exausto ao vórtice do hábito vicioso que o impede de se pensar.

Somente o conatus de Spinoza – o esforço para perseverar em sua essência[2] – aliado à melhor formação humanística podem socorrer o executivo do espectro que ronda a dissolução da própria individualidade.

O conatus – originário do órmé estoico[3] – é uma tendência espontânea. Uma força como a da gravidade na balística de Descartes[4]. Faz com que os seres propendam à conservação da sua identidade. Não pode ser apreendido, só extraído da consciência.

A ocupação da mente e do tempo com insignificâncias e preocupações menores anula a possibilidade do conatus. Por isto poucos conseguem reverter a pasteurização axiológica de que foram vítimas. Por isto só os mais avisados conseguem reeducar-se e modular a servidão psíquica e social, emancipar-se, lograr uma existência minimamente digna.

UTILIZE E CITE A FONTE.
[1] Platon (1981). Apología de Sócrates, XXVI. In. Obra completa. Traducción del griego de María Araujo et allí. Madrid. Aguilar S. A. de Ediciones.

[2] Spinoza, Benedictus de,(2002). Ethics, III. Prop. VII. In, Complete Works – Spinoza. Translated by Samuel Shirley and others; edited, with introduction and notes, by Michael L. Morgan; Hackett Publishing Company, Inc.; Indianapolis I Cambridge (Espinoza,

[3] Cícero (2014) De Finibus bonorum et malorum (About the Ends of Goods and Evils) 3,5,16. In Delphi Complete Works of Cicero (Illustrated). Translated by C.D. Yonge. Delphi Ancient Classics Book 23. English Edition. [EBook Kindle]

[4] Descartes (2015). Les Principes de la philosophie.In, René Descartes : Oeuvres complètes et annexes (22 titres annotés, complétés et illustrés) (French Edition) [EBook Kindle]
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