O que é compreender?

Epistemologia & Método.

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A epistemologia deve muito ao filósofo alemão Wilhelm Dilthey (1833 – 1911) que procurou fundamentar o que batizou de “ciências do espírito” para explicar a vida e a sociedade. Foi Dilthey quem rompeu os laços que prendiam ao kantianismo, ao demonstrar que as verdades têm uma história e que o sentido do mundo e de si mesmo é dado e mudado pelo homem na sua trajetória pela vida.

Atônito ante a inépcia dos seus contemporâneos, Dilthey recuperou o pensamento filosófico desde o Renascimento, e aplicou um arsenal inteiramente renovado de conceitos ao conhecimento do humano. O conceito que mais influência exerceu e exerce é o do verbo “compreender”.

Compreender tem origem no latim com + praedâri, saquear, segurar ou prender junto. Aparece no século XVIII na linguagem erudita como tradução de intelligere (inter + legere, escolher, ler em), termo ligado aos substantivos intelellectus (o que compreende, o que lê), e intelligentia (a capacidade de compreender, de ler a realidade).

Na passagem para o século XIX o compreender era tema central da teoria do conhecimento. Os conceitos derivados (compreender perfeitamente; apreender e compreender; incompreensão; etc.) se dirigiam tanto para o observado – um texto, uma ocorrência, um objeto, … – como para as fontes epistêmicas – a percepção, a introspecção, a memória e a razão. Nesta época a compreensão se tornou um dos principais elementos metodológicos, junto à explicação e à interpretação. Aplicou-se à investigação tanto direta – as opiniões e saberes -, como indireta – o que os outros disseram e fizeram, o que dizem e fazem (o testimonium aliorum de Sto. Agostinho).

Várias das proposições de Dilthey, como a de que “… nós explicamos a natureza, nós compreendemos a psique” e a da compreensão como empatia, estão hoje superadas. A compreensão por intropatia – fortemente criticada por Weber (2003) – foi explorada na área psi, mas no sentido de que compreender é a maneira pela qual a mente experimenta a objetivação do espírito alheio.

Por outro lado, os objetos típicos da compreensão – textos, imagens, artefatos – se expandiram nas últimas décadas. Abarcam hoje as argumentações, as edificações, as expressões linguísticas e sígnicas, as normas, os atos. Mas a relevância do compreender e o argumento de fundo de Dilthey permanecem intocados.

Clique aqui para saber mais sobre argumento, conceitos, fundamentos e desvios.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Cherques, Hermano R. T.(2012) Conceitos e definições: o significado em pesquisa aplicada nas ciências humanas e sociais. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getulio Vargas.

Dilthey, Wilhelm (2010). Introdução às ciências humanas – Tentativa de uma fundamentação para o estudo da sociedade e da história. Trad. Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro.
 Forense Universitária.

Dilthey, Wilhelm. (2010). A construção do mundo histórico nas ciências humanas Trad. Marco Antônio Casanova. São Paulo. UNESP. 2010.

Heidegger, Martin (2009). Ser e tempo; Tradução de Márcia Sá Cavalcanti Schuback; Petrópolis Vozes.

Heidegger, Martin (2012). La idea de la filosofía y el problema de la concepción del mundo. Ciudad de Mexico. Herder Editorial

Heidegger, Martin (2015). Contribuições à filosofia: do acontecimento apropriador. Tradução de Marco Casanova. Rio de Janeiro. Via Verita Editora

Hodges, Herbert Arthur (2013). Philosophy of Wilhelm Dilthey (International Library of Sociology) eBook Kindle. Routledge.

Kremer-Marietti, Angèle (1971) Wilhelm Dilthey et l’anthropologie historique, Paris, Seghers.

McRae, Donald Gunn (1975). As ideias de Weber; São Paulo; Cultrix,

Ryle, Gilbert (2009). The concept of mind. Abingdon, UK. Routledge.


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