Ocasionalismo – o que é?

Ética & Credibilidade.

ocasionalismoOrigem

O termo deriva do latim occidere, cair, como o cair do sol (o ocaso), o lugar onde o sol se põe (o Ocidente), o que recai conforme a circunstância (o caso) ou a oportunidade (a cadência).

O ocasionalismo é uma concepção do filósofo francês Nicolas de Malebranche (Paris; 1638-1715), décimo terceiro filho do conselheiro de Luiz XV, rei de França.

Destinado ao sacerdócio, sem para isto ter vocação, Malebranche dedicou-se aos estudos eclesiásticos de má vontade.

Em 14 de setembro de 1664, dia da sua ordenação, lê o Tratado do Homem de Descartes. Atraído pela dinâmica do raciocínio lógico, dedicou o resto da vida à conciliação entre a alta filosofia e a doutrina cristã.

Segundo o ocasionalismo, o desígnio divino seria a única verdadeira causa eficiente do ajuste que faz recair os movimentos do corpo em função dos ideais da alma. Os fenômenos no mundo natural teriam causas meramente contingenciais, ocasiões que precedem seus efeitos e não verdadeiras causas eficientes.

Desta forma, o ocasionalismo resolvia o problema cartesiano da interação entre o corpo e a alma, já que, de acordo com Malebranche, “somos a causa natural do movimento de nosso braço, mas as causas naturais não são as verdadeiras causas, são apenas causas ocasionais que agem através do poder e da eficácia da vontade de Deus” (Alquié; 1974).

Distorção

O filósofo católico alemão Carl Schmitt (Plettenberg; 1888 – 1985), o “jurista maldito” do nazismo, conhecido como a “Cassandra de Hitler”, recuperou e distorceu o conceito para atacar os ideais românticos da individualidade e da supremacia da imaginação sobre a razão.

Schmitt postulou que todo o movimento do Romantismo não passaria de um “ocasionalismo subjetivado”, em que a pessoa toma o lugar de Deus para ser o “mestre construtor da catedral da sua própria personalidade” (Schmitt; 1986; 20).

Pensamento mágico

No final do século XX, o conceito de ocasionalismo foi transmudado para caracterizar o fenômeno psíquico conhecido como “pensamento mágico” ou “pensamento desejoso”, entendido como a formação de convicções em função dos nossos desejos ao invés do que seria razoável ou lógico esperar.

Nesta derivação, deu razão ao idealismo extremado, aos seguidores de  Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), o filósofo que defendeu uma visão kantiana do mundo em que a realidade é basicamente uma consequência do pensamento, uma criação da mente (Gueroult, 1982).

Atualidade

Na atualidade, o termo acabou por definir figuras perniciosas da argumentação como a hipóstase, a relativização, a absolutização ou a divinação da realidade em favor de uma fé, de uma crença ou de uma ideologia.

De modo que o ocasionalismo expressa a atitude de quem assume o real apenas como ocasião para produção de ideias enamoradas de si próprias (Safranski; 2005; 89).

UTILIZE E CITE A FONTE.
Alquié, Ferdinand (1974). Le cartésianisme de Malembranche. Paris. Librairie Philosophique J. Vrin.

Guéroult, Martial (1982).  l'Evolution et la Structure de la Doctrine de la Science chez Fichte. Alemagne (Hildesheim). Olms Verlag.

Safranski, Rüdiger (2005). Heidegger – Um mestre da Alemanha entre o bem e o mal. Tradução de Lia Luft. São Paulo. Geração Editorial.

Schimitt, Carl (1986). Political Romanticism. Translation Guy Oakes. Boston. MIT Press
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