As novas galés.

Trabalho & Produtividade.

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As galés eram embarcações de guerra. Havia de vários feitios. As galés ditas sutis não tinham porões.  As galés grossas e as bastardas dispunham de vários conveses. Todas possuíam velas, mas a principal força motriz eram os condenados, que cumpriam suas penas acorrentados aos remos.

O sistema de trabalhos forçados nas galés durou até chegada da navegação à vela no século XVI. No Brasil este tipo de apenamento só foi abolido pela constituição de 1891, dando lugar a outras modalidades de punição. Em todo o mundo os galés tardaram a desaparecer e deixaram rastros.

Em meados do século XX o trabalho burocrático, o trabalho operário e o trabalho comercial ainda guardavam características da servidão nas galés. Houve, então, a promessa de uma libertação definitiva. A esperança de que a tecnologia digital viria a nos emancipar dos grilhões do emprego, inaugurando uma época de trabalho partilhado, autônomo, intelectualizado. As estruturas rígidas de produção dariam lugar a relações colaborativas. A fluidez da informação anularia a contabilidade de processos, tempos, movimentos, certificações. A qualidade, a inovação, a customização seriam os novos parâmetros de avaliação.

Não foi o que aconteceu. As previsões tecnológicas se confirmaram, claro. O que não se confirmou foi a substituição de uma realidade laboral por outra. Elas se sobrepuseram. Quantitativamente, a modalidade arcaica continuou a dominar. A libertária, não prosperou. Ao relógio de ponto, aos borderôs, às ordens de serviço vieram se somar às algemas intangíveis que nos prendem aos teclados, como os galés eram presos aos remos.

O que ocorreu foi que o assomo do fluxo de dados passou a requisitar avaliações instantâneas, tarefas recorrentes, interações contínuas. A volatilidade dos objetivos e o efêmero das tarefas implicaram em requisitos técnicos sofisticados, em precarização de horários, de vínculos, de compromissos. O enfado da repetição foi substituído pelo vazio surreal kafkiano do trabalho – fragmentado, desconexo, inconstante – em face do monitor e com socorro dos App’s.

Nas galés digitais, a fronteira entre tempo de trabalho e tempo livre se dissipou. O tráfico de bens e informações fez do operário, do funcionário, do empregado em escritório um ser quimérico, parte produtor, parte vendedor, parte consumidor, parte mercadoria. Fez de todos nós galerianos virtuais, presos a embarcações que seguem rotas divergentes. Tudo o que produzimos, tudo o que vendemos, tudo o que consumimos, tudo o que valemos é informado ao grande escritório de análise e construção de tendências subjacente à Web.

A produção e o consumo, seja de mercadorias, seja de serviços, seja de lazer prende e condiciona pela informação biométrica que gera. O crowdsourcing é o feitor das práticas, dos hábitos e dos desejos. Produzimos e compramos o que o açoite dos feitores da vida eletrônica nos impõe. As cadeias que nos prendiam aos remos, ao solo, ao galpão, às ferramentas, às máquinas, ao escritório, foram substituídas pelas que nos prende ao teclado.

A evolução é aparente. Nas galeras sutis os apenados remavam ao ar livre. Não consta que fossem mais felizes do que os galés nos porões.

 UTILIZE E CITE A FONTE.
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1 comentário

  1. Pois, pois. É isso aí.

    Magnífico artigo, mas angustiante.

    Você vê o que acontece com as Olimpíadas. O Brasil nunca ganhou tanta medalha. Mas a crítica é que não atingiram o *target* imaginado pelo C.O.B. Então, foi mal…

    Acho, mas não sei porque: os tempos verbais do último parágrafo me deixaram confuso.

    Abraços

    2016-08-23 7:17 GMT-05:00 Hermano Projetos – Pensar o trabalho, o trabalho

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