Liderança autêntica, liderança libidinosa.

Trabalho & Produtividade.

18

Frequentemente olhamos para o cenário político e não vemos em quem confiar, não vemos uma pessoa sequer que possa nos liderar.

Na esfera corporativa não é diferente. No caso em que a modalidade de comando por liderança é tecnicamente recomendável, o que está longe de ser a regra, procura-se quem possa assumir a tarefa e não se encontra.

Ainda assim se opta pelo sistema de liderança. Uma escolha que tem raízes no conservadorismo, na insistência em se manter ou em se adotar uma estrutura de direção convencional, mesmo quando se mostra ineficaz.

A dificuldade em se tratar com modalidades de ordenação distintas das habituais é um fenômeno histórico. Ocorreu, por exemplo, com os colonizadores ibéricos, que, inconformados ante a inexistência entre os nativos de líderes no formato europeu, inventaram o cacicado – uma palavra do idioma taino – para denominarem próceres circunstanciais, como os morubixabas, os curacas ou os sobas africanos.

Pela mesma razão os ibéricos inventaram o mandarinado. A palavra mandarim – aquele que manda – é corruptela, universalizada pelos portugueses, da expressão sânscrita para “conselheiro letrado”. Um termo criado para suprir a ausência do conceito de chefia entre a maior parte das culturas do extremo oriente, como na China, em que há uma sinonímia entre comandar e cuidar e em que os sistemas de governança são ritualísticos.

Excetuada a inércia e o servilismo culturais, em sendo tecnicamente adequado o sistema de liderança, ele dependerá para ser efetivo de uma conjunção entre circunstância e talento. O líder autêntico não é um chefe (boss leader), um morubixaba, um mandarim, mas é o que indica a melhor trajetória, o que é o condutor (lat. – duco), o que assinala o caminho certo.

O líder autêntico (do germ.- laitho, ir junto, pelo ingl.- leader, ir á frente) difere em essência do líder libidinoso, infinitamente mais comum.

A liderança libidinosa tem origem em algo na psique de algumas pessoas que as impele ao gosto por dar ordens, que as dota de uma cupidez sem fundamento ou razão, emulada artificialmente, que as insufla, que as direciona e, que, muitas vezes, as perde. Este anseio de ver satisfeita a vontade é conhecido desde a Antiguidade pela palavra latina “libído,ìnis”.

A difusão da psicanálise fez com que o termo pareça hoje descabido. Mas a verdade é que Sigmund Freud procedeu a uma redução quando adotou a variante da expressão “libuit,lubére” (ter desejo), para significar a energia psíquica desatada pela pulsão sexual. Na origem, o sentido do termo era amplo. A libido correspondia tanto ao desejo erótico quanto às ambições por bens materiais e às pretensões de dominação política.

Em que pese o encurtamento do sentido que adotou, a teoria de Freud sobre a libido se encaixa belamente em qualquer uma dessas denotações. Principalmente porque, à diferença da pulsão somática, a libido pode orientar-se para um objeto externo ou para o próprio indivíduo (libido narcisista). Há um trade off entre as duas: quando uma libido aumenta, a outra diminui.

Daí a legitimidade para configurar a liderança libidinosa de se traçar um paralelo com outro conceito freudiano: o da “exigência do trabalho” que se exerce sobre si mesmo (Arbeitsanforderung). Esta exigência é tanto externa – a pressão socioeconômica que obriga o indivíduo a se adaptar ao meio e ao momento –, como interna – a elaboração, o trabalho sobre si mesmo (e-laboração) por meio da experiência internalizada.

Analogamente, a sede de dar ordens tem origem externas – a aspiração de poderio -, e internas – o autoconvencimento da própria relevância. Tal como a erótica, as formas de libido pecuniária e política implicam o surgimento de estados patológicos. No limite, constituem um transtorno da psique que pode ter origem no próprio do indivíduo – a volúpia de mandar ad libitum (à vontade) – ou derivado das mazelas sociais – a triste lubricidade do querer se impor quodlibet (livremente).

 UTILIZE E CITE A FONTE.
Freud, Sigmund (1996) As pulsões e suas vicissitudes (1915). Edição Standard das Obras Completas (ESB). Rio de Janeiro. Imago.

Oxford Latin Dictionary (2012) Oxford, Oxford University Press

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s