Bauman: nós, os supérfluos.

Trabalho & Produtividade.

Três conceitos fundamentais do sociólogo teórico Zygmunt Bauman ajudam a compreender as implicações da eliminação dos postos de trabalho. São eles: o de modernidade líquida, o de resíduos humanos, o de populações supérfluas.

O termo “modernidade líquida” descreve sinteticamente uma sociedade mutante, caracterizada pela dissolução, e que altera sua forma instantaneamente. Uma sociedade em que as relações e as posições político-econômicas se desfazem para se recomporem em articulações distintas e inesperadas ou para desaparecerem para sempre.

Decorre da liquefação da sociedade que a preparação para o trabalho e a manutenção da capacidade produtiva se vêem na circunstância de ter que se recompor continuamente. O processo de solvência e reconstituição constante termina por degradar a capacidade de restauração dos indivíduos e das estruturas relacionais até a desagregação.

Este movimento produz “resíduos humanos”: os trabalhadores que já não encontram espaço na economia. Fadados à inatividade ou a atividade inócua, os seres residuais são permanentemente marginalizados. Por mais que se esforcem, não logram ultrapassar a fronteira de ingresso ou de retorno ao trabalho. São como elementos leves que boiam sobre a sociedade liquefeita. A tensão superficial impede a penetração destas pessoas sem peso econômico suficiente para romperem a película que as separa da simples subsistência.

Exilados dos meios de produção, os trabalhadores residuais se somam à massa dos desnecessários: os não-qualificados, os velhos, os enfermos e as crianças. Juntos, conformam um aglomerado de “populações supérfluas”, que transcendem a arbitrariedade das fronteiras comunitárias, nacionais e regionais.

A articulação dos fenômenos da modernidade líquida, dos resíduos humanos e das populações supérfluas é condicionada pela inovação tecnológica, pela diversidade de transações econômicas, pelo apelo midiático, pela efemeridade das mercadorias, pela disponibilidade de serviços e pela lógica consumista.

Esta estrutura tem como efeito direto a viscosidade das legislações trabalhistas – que prendem o empregado ao seu emprego, o funcionário à sua carreira-; a compressão das relações familiares e dos círculos de amizade dentro e fora das organizações; a evaporação da lealdade nas relações capital-trabalho e trabalho-trabalho. Embora Bauman não trate disto, parece evidente que a liquefação implica em esforços improdutivos de retenção, de congelamento do status quo.

O trágico é que, no limite, a sociedade liquefeita pode marginalizar os residuais, os supérfluos, os excedentes, mas não fará com que evanesçam. Eles (nós) refluirão (já refluem) transfigurados em informais, em indignados, em ocupantes, em ilegais, em insurgentes, em fanáticos.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Baulman, Zygmund (1997). O mal estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997

Bauman, Zigmunt (2001). Modernidade Líquida; tradução, Plínio Dentzien;  Rio de Janeiro: Jorge Zahar

 

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