Stiegler: Calculabilidade, o plural do singular.

Trabalho & Produtividade.

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“Calculabilidade generalizada” é uma noção posta em voga pelo filósofo Bernard Stiegler. Designa o controle digital da vida contemporânea. O conceito se articula com o entendimento de que a “miséria simbólica” do “capitalismo autodestrutivo” torna a existência calculável, desqualificando as relações sociais (Stiegler; 2009).

A ideia do empobrecimento moral e intelectual da vida e do trabalho como resultado da calculabilidade não é nova. Já foi exposta por Heidegger em Serenidade (1994), por  Simmel em Philosophy of Money (aqui), por Horkheimer e Adorno na Dialética do esclarecimento (1985), e por Martin em Financialization of daily life (2002). Mas a aplicação do conceito às vinculações comunicacionais e informacionais traz uma nova luz sobre temas que estão na ordem do dia.

Na configuração pensada por Stiegler, a calculabilidade induzida pela Internet amplia a níveis antes inimagináveis do conceito grego de φάρμακον [pharmakon], nos três modos concorrentes em que Platão o aplicou à escrita: o de remédio, o de cosmético e o de veneno.

A calculabilidade generalizada seria um remédio (fármaco) porque intensifica o acesso à informação e facilita a retenção do conhecimento. Da mesma maneira que, na Grécia antiga, a escrita permitiu a expressão e a conservação da diversidade social, a Internet beneficiaria a individuação psíquica, a identidade coletiva e a cidadania.

Na sua face cosmética, a calculabilidade implicaria em uma farsa similar à das tramas das novelas, que se baseiam em pesquisas de audiência para determinar os destinos dos personagens. Algoritmos, como os da Google, terminariam por transformar singularidades em particularidades, isto é, em elementos calculáveis, homogeneizados e banalizados. Ao submeter tudo ao cálculo, tornariam todos os rostos iguais e todos os trabalhadores robôs, engendrando uma maquiagem, uma “submissão voluntária”, que logo se transforma em involuntária e irreversível.

Por último, a calculabilidade da Web seria um veneno para o trabalho porque intensifica o insulamento, implicando na solidão psíquica, na estratificação coletiva, na dissolução cultural, na despersonalização. Além disto, favoreceria os sistemas organizacionais totalitários, estribados na economia dos dados (data economics), privando a fiscalidade dos poderes públicos e associativos dos seus meios de ação e de controle.

O risco representado pelo pharmacon “calculabilidade generalizada” não é pequeno. Como no ditado português que reza: “aquele que muito se ausenta, termina por não fazer falta”, a dispensabilidade do espirito, a omissão do pessoal e do humano promove a automatização da existência, o incremento das atividades não criativas, a vulgarização das mentes.

O fato é que o cálculo informacional, baseado em quantidades imensas de dados, tornou o trabalhador humano uma prótese do sistema de produção, fenômeno que Stiegler (1994) denomina de “proletarização das elites” privadas do controle sobre a lógica da sua existência.

A contrapartida dialética da calculabilidade seria que, o trabalho convencional tornado dispensável, substituído pela máquina, pelo autônomo, possibilitaria – como acreditou o jovem Karl Marx (aqui) -, que a vida laboral, se concentrasse nas formas marginais de trabalho, artesanais, personalizadas, nobres.


O conceito de calculabilidade generalizada e dos riscos a ela associados é um alerta precioso, mas merece dois reparos.

Primeiro, não há alternativas. Não se vê como qualquer sistema econômico, capitalista ou não, que vigore na era digital, possa se ver livre da calculabilidade e dos seus efeitos. Segundo, não parece haver nada a fazer no âmbito das formas convencionais de resistência ativa.

O exame desinteressado das configurações dos cenários prospectivos construídos desde o segundo termo do século XIX até o presente, evidencia a imprevisibilidade absoluta dos efeitos das iniciativas de fundo ideológico sobre o quadro socioeconômico. De modo que, ante a calculabilidade e a miséria simbólica da economia autodestrutiva, resta aos que trabalham e pensam os recursos de sempre: a conscientização, a denúncia fundamentada, a resistência passiva.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Adorno, Theodor W, & Horkheimer, Max. (1985). Dialética do Esclarecimento. Tradução de Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro. Zahar Editores.

Heidegger, Martin (1994). Serenidad. Trad. Antonio Zubiaurre. Revista Colombiana de Psicologia. Nº 3. Universidad Nacional de Colombia, Bogotá, Colombia

Martin, Randy. (2002) Financialization of daily life (Labor In Crisis). Philadelphia. Temple University Press

Stiegler, Bernard (s/d). http://www.arsindustrialis.org./

Stiegler, Bernard. (1994). La technique et le temps. Paris. Éditions Galilée

Stiegler, Bernard. (2009) Pour une nouvelle critique de l'économie politique. Paris. Éditions Galilée
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