Santo Agostinho: o futuro do trabalho.

Trabalho & Produtividade.

Foto: Santo Agostinho criou uma filosofia que deu suporte racional ao cristianismo

As profecias sobre o trabalho atrelam-se às lembranças míticas e às expectativas idílicas. Sabemos que o trabalho será diferente no futuro. E no entanto nos aferramos ao passado imediato e ao presente para figurar o porvir do trabalho. É um contrassenso. Ainda que, por hipótese, nós, os humanos, permanecêssemos inalterados como indivíduos e como grupos, as relações que determinam a posição do trabalho no mundo da vida se modificariam, porque, como disse Sto. Agostinho, “… o tempo é feito da mudança das coisas, de variações e transformações das formas …” (Confissões, L. XII, 8)

Vivemos e trabalhamos no presente, mas o fazemos segundo as formas experimentadas no passado recente ou remoto. Trabalhamos sempre aqui e agora, mas o nosso pensamento está no futuro. Esforçamo-nos para gerar isto ou aquilo, para que nos paguem, para que nos realizemos. A nossa atenção e os nossas mãos trabalham sempre em, mas a nossa mente trabalha sempre para.

Dentre muitas e famosas lições sobre o tempo, Santo Agostinho deixou escrito que “… estando estas coisas na alma, não as vejo em nenhum outro lugar: o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro. E essas três espécies de tempos existem em nossa mente, e não as vejo em outra parte. O presente das coisas passadas, que é a memória; o presente das coisa presentes, que é a atenção (intuição); o presente das coisas futuras, que é a expectativa….” (Confissões, XI: 20, 26)

Vivemos e trabalhamos no presente, mas não é o presente que nos faz trabalhar. O que nos faz trabalhar é a antecipação, o que baliza o trabalho é a miragem.

Cada presente imagina o futuro de uma forma. O imaginário do futuro de há cinquenta anos foi o que fez que se construísse uma cidade como Brasília, hoje francamente obsoleta. O imaginário do futuro é o que faz construir Masdar, a cidade nos Emirados Árabes que não terá automóveis, mas podcars, que não terá emissão de CO2, porque será movida a eletricidade solar.

Pensar o trabalho futuro não é coligir dados nem projetar acontecimentos. É imaginar: exercitar a Phantasie, como queria Edmund Husserl.

O nosso imaginário hoje é o oposto do nosso imaginário de há cinquenta anos e, com certeza, muito diferente do imaginário de daqui a cinquenta anos. O que sabemos ou pensamos saber sobre o trabalho ou bem corresponde a especulações sobre o futuro de meio século atrás, ou, se teve realidade, esta realidade já se encontra vencida.

Muito do que nos esforçamos para resolver ou corrigir – inclusive em termos de legislação e de capacitação – corresponde a ideias, a ideais e a ilusões que não se realizarão, ou que se realizarão quando já forem inadequadas, inoportunas, arcaicas.

A probabilidade de no futuro irmos até o lugar de trabalho, de nos vincularmos a uma organização, de termos um salário e de que dele dependamos para nos sustentar é tão alta (ou tão baixa) como a de que trabalhemos em qualquer lugar que queiramos, vendendo o produto do nosso esforço para inúmeros adquiridores. Isto quando nos apetecer.

Trabalhador Fatigado - Giorgio de Chirico

No próximo meio século, o fenômeno que, desde o Renascimento, denominamos de trabalho poderá perfeitamente deixar de existir. Poderá ser substituído por outra forma de esforço produtivo. Ou por nenhuma. A produção poderá estar a cargo de autômatos e as nossas necessidades de sobrevivência poderão ser supridas pelo estado.

Tudo o que se diz sobre o trabalho no futuro parece especulação simplesmente porque é. As projeções econômicas, educacionais, gerenciais de longo prazo, são fruto da razão desejante de cassandras, de visionários, de regressistas, de utopistas.

Somente o exame das discrepâncias nos futuros do passado, pode nos dar pistas do porvir.

Se for como tem sido, se sabedoria de Agostinho permanecer intocada, no futuro continuará a prevalecer mais o saber filosófico do que o domínio das técnicas; valerá mais a vivência do que a informação; valerá mais vivermos a vida laboral intensamente do que nos determos com preocupações de um imaginário que nem mesmo é o nosso.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Husserl, Edmond (2006). Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica: introdução geral à fenomenologia pura. Tradução de Márcio Suzuki. Aparecida, SP: Ideias e Letras.

Santo Agostinho (2010) Confissões. Tradução: J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. Petrópolis. Editora: Vozes /&/ Augustin (1894). Les confessions de Saint Augustin.
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