A ética de si – orientação moral em uma sociedade mutante.

Ética & Credibilidade.

robotsDiversas perspectivas – como as de Sartre[1], de Cavell[2] e de Foucault[3] –  postulam o auto aperfeiçoamento moral como caminho de ajustamento às situações e significados no mundo contemporâneo.

Conciliadas sob a denominação genérica de “éticas de si”[4], estas formas de ver são desdobramentos da proposição de Heidegger[5], da responsabilidade que temos sobre a nossa própria existência.

O seu ponto de partida é a constatação da inevitabilidade da perda dos valores referenciais. O deslocamento do padrão moral como algo que ocorreu e que continuará ocorrendo aceleradamente face à metamorfose das instituições sociais, econômicas, políticas.

O diagnóstico compartilhado é o de que as interações sociais – fragmentadas pelo desacerto econômico e maximizadas pela tecnologia – causam rupturas súbitas e violentas nos relacionamentos. Descompassos que estreitam o espaço e tempo de reequilíbrio da existência.

As éticas de si pretendem enfrentar as interferências – voluntárias ou não – sobre as biografias que impedem a autoconsciência clara e objetiva dos eventos íntimos e sociais.

A estratégia é tornar visível o exercício cotidiano de dominação dos poderes sociopsíquicos. Uma exposição que seria fruto da análise das “técnicas do ordinário”, isto é, da identificação das práticas de ajustamento da vida às estruturas relacionais que mantemos com o mundo, com os outros e, reflexivamente, conosco.

O exercício das éticas de si parte de uma decisão-chave: a de não nos abandonarmos. Uma escolha difícil, desconfortável e inteiramente pessoal de mobilizar esforços no contrassenso do entendimento da moralidade convencional.

A proposta é a de abraçar uma “estética da existência”, combinando os antigos exercícios espirituais e o aperfeiçoamento moral continuado. Com isto seria possível alçar os investimentos pessoais à dimensão moral de uma “política de nós mesmos”.

O propósito desta forma de nos conduzirmos no que é o ordinário na vida contemporânea é o de fazer com que o mundo e os outros não nos angustiem. Segue-se que a política de nós mesmos nas relações com as instituições, os grupos e os outros repousa em três chaves distintas: a da autocompreensão, a do autoaperfeiçoamento, e a da autorrealização:

  • ao contrário de procurar estender a rede de relações, sejam elas pessoais ou profissionais (o networking, as redes sociais, a tagarelice inconsequente) tratar de cuidar de si, de se conhecer pela auto-observação e pela comparação com o manifesto e o oculto no mundo circundante;
  • ao contrário de procurar ascender aos olhos dos outros, procurar a elevação na “vertical de si”, no tornar-se o melhor que se possa ser, atualizando o máximo do potencial intelectual e afetivo;
  • ao contrário de buscar a eternização da juventude do corpo e a informação atualizada das modas e dos acontecimentos, procurar ajustar-se ao próprio corpo e selecionar o acervo disponível de experiências que podem conduzir à sabedoria.

Do ponto de vista do trabalho, a ética de si caminha na direção inversa à das pregações econômico-gerenciais que aí estão. Tem que a autorrealização depende do autoconhecimento (quem sou eu?), e não o que produzimos. O autoconhecimento depende da introspecção a partir do mundo (o que quero ser eu?), e não do que os outros esperam de mim.

O ideal ético de si do trabalho é de procurar fazer o que faço de melhor desde que isto que faço não seja nocivo aos outros. Daí que todo trabalho deve ser o mais espontâneo, voluntário e qualificado (o que se tem vontade de fazer, o que se faz melhor), e cujo retorno seja medido em termos psicossociais (para mim e para os outros).

Enquanto indivíduo, o meu dever moral é evoluir – como em Sto. Agostinho[6]: não para a frente, mas para o alto. Se me rebaixo profissionalmente, se me resigno a ser o mais ínfimo dos burocratas, ou se, como Sísifo[7], me conformo a carregar pedras de um lugar a outro e de volta, então me colocarei na escala mais baixa da moralidade. Não importa se por inapetência, por incúria ou por necessidade.

Enquanto ente sociopolítico, tenho o dever moral de identificar a medida em que a instituição a que me vinculo, seja um banco, a universidade, uma indústria, etc., abre ou limita a minha possibilidade de elevação espiritual e de diminuição do sofrimento alheio.

Em síntese: para as éticas de si, todo trabalho – como todo vínculo profissional – deve ser medido em função do que permite, interdita ou obriga em termos das condições para aperfeiçoamento ético individual (o que eleva cada pessoa), e do mundo (o que diminui as amarguras de todos).

Decorre, em primeira instância, que se um emprego,louros10 profissão, organização, etc., qualquer que seja, dificulta ou não permite que exerça meu aperfeiçoamento moral, devo procurar excluir-me dela.

Decorre, em segunda instância, que se entendo que o balanço do que uma instituição, uma organização faz e representa é negativo em relação a todos (a mim mesmo e aos outros), a minha obrigação moral é a de contribuir para a transformar ou para fazer com que pereça.

UTILIZE E CITE A FONTE.
[1] Sartre, Jean Paul (1969). Moral e Sociedade. Atas do Congresso promovido pelo Instituto Gramsci. Tradução Nice Rissone. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

[2] Cavell Stanley Louis (2006). Philosophy the day after tomorrow. Cambridge MA. Havard University Press.  

[3] Foucault, Michel (2014) A hermenêutica do sujeito. Tradução de Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail. São Paulo. Editora WMF Martins Fontes.

[4] Lorenzini, Daniele (2015). Éthique et politique de soi : Foucault, Hadot, Cavell et les techniques de l’ordinaire.

[5] Heidegger, Martin (2009). Ser e tempo; Tradução de Márcia Sá Cavalcanti Schuback; Petrópolis Vozes.  

[6] Agostinho (2002). A Cidade de Deus. Tradução de Oscar Paes Lemes. Rio de Janeiro. Vozes.

[7] Camus, Albert (2014). O mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. Rio de Janeiro. BestBolso.
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