O trabalho sem qualidades.

Trabalho & Produtividade.

O emblema de um produto artesanal como obra de arte é o saleiro fabricado para o rei da França, Francisco I, pelo pintor, escultor, escritor e multimídia florentino Benvenuto Cellini (1500 – 1571), cujos quinhentos e dezessete anos de nascimento se comemoram neste 3 de novembro.

A peça, de 26 x 33,5 cm, pode ser vista no Museu Kunsthistorisches de Viena. Consta de um pequeno barco onde se coloca o sal, rodeado pelas personagens mitológicas Cibele e Netuno, a deusa da terra e o deus do mar. Esferas de marfim incrustadas sob o pedestal permitem deslocar o saleiro na superfície da mesa.

A obra, segurada em 70 milhões de dólares, é feita de filigranas de ouro. É uma peça de tal modo cara e magistral que seria inimaginável ser utilizada em nossa era. Por duas razões. Primeiro, porque o artesanato de alto nível não se distingue mais da arte. Serve para a admiração, para o espanto e para o comércio. Segundo, porque o trabalhador foi degradado de artesão hábil a um apêndice da máquina e da burocracia.

Lembra o homem sem qualidades descrito por Robert Musil (1880 – 1942). Ulrich – este o nome o personagem – foi o habitante de um império decadente, o Austro-Húngaro, que viveu a mascarada da “ação paralela”, a forma burocrática, chapada, das vivências artificiais. Um mundo em que a experiência pessoal não contava. Fazia-se o que todos “devem” fazer, vivia-se experiências impessoais: sem os outros e sem interioridade.

O livro de Musil é de leitura desconfortável. Ulrich era um anônimo, um ser comum, o protótipo do Dasein inautêntico de Martin Heidegger, para quem a existência é a essência de seu ser, não o espírito. O desconforto é maior ao se notar que, ao contrário de Cellini, do Império, de Ulrich, de Musil e de Heidegger, o homem sem qualidades não despereceu. Vive entre nós, no burocrata domesticado, no operário subjugado das organizações deste primeiro terço de século.

Como o seu ascendente, o trabalhador sem qualidades tem predicados, mas são atributos que não o diferenciam, que não lhe dão identidade própria. Não tem como escapar dos processos laborais sem sujeitos, de um ‘mundo de qualidades sem homem’, ‘de vivências sem aquele que as vive’.

George Tooker Não reconheceríamos um Cellini, nem o seu (para nós) absurdo saleiro. No ciclo atual de produtivismo desenfreado, de precariedade e de vulgaridade, o trabalhador instruído e profissional desapareceu. No seu lugar entrou o técnico adestrado na conformidade. Um elemento ISO, padronizado, conversível, reciclável, substituível e descartável.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Musil, Robert (1989) O homem sem qualidades. Tradução Lya Luft e Carlos Abbenseth. São Paulo. Nova Fronteira
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s