Foucault e os cachorros de Obama.

Notícias & Epistemologia.

Revistas científicas precisam acelerar mudanças para acompanhar as novas demandas das sociedades.

Por por Thomaz Wood Jr em Carta Capital.

Revistas científicas constituem um dos pilares da ciência. Seus editores são, supostamente, os guardiões da relevância e da qualidade do que é veiculado. Pesquisadores as utilizam para expor e disseminar seus mais recentes achados. Ter um artigo publicado em uma revista importante é conquista a ser celebrada, pois reflete o reconhecimento do trabalho realizado.

A façanha costuma ser fruto de trabalho longo e extenuante. As principais revistas científicas operam como verdadeiros funis, com centenas de artigos concorrendo por espaços de publicação limitados. Os trabalhos enviados passam por uma triagem severa, que envolve editores e avaliadores.

As primeiras revistas científicas surgiram no século XVII, na Inglaterra e na França. Os primeiros periódicos do campo da Administração vieram ao mundo no século XX, nos Estados Unidos, acompanhando o desenvolvimento dos subcampos.

O Journal of Marketing tem 80 anos; o Journal of Finance, 71; a revista Administrative Science Quarterly, 61; e o Strategic Management Journal, 37. Existem hoje quase 3 mil periódicos qualificados no campo da Administração, publicando aproximadamente 100 mil artigos por ano. Parecem sobrar escritores e faltar leitores.

No Brasil, a Fundação Getúlio Vargas e a Universidade de São Paulo criaram os primeiros periódicos nacionais na década de 1960, pouco depois da instalação de suas escolas de Administração, pioneiras no País. Hoje, temos cerca de 80 revistas que publicam textos científicos sobre Administração.

A produção local é ainda pueril, mimetizando com pouco esforço, sem muito talento e com atraso, o que os pesquisadores conseguem captar dos centros mais desenvolvidos. Aqui também parecem sobrar escritores e faltar leitores.

Há duas décadas, o mundo das publicações científicas iniciou um turbulento período de mudanças. O número de periódicos cresceu exponencialmente, contemplando temas cada vez mais específicos. A ciência se internacionalizou, povoando sumários e corpos editoriais com nomes de seis continentes. As publicações eletrônicas ganharam espaço. E a questão do livre acesso transformou-se em causa e movimento, contrapondo cientistas e ativistas a grupos editoriais com fins lucrativos. 

Em paralelo, surgiu a pseudociência, ancorada em periódicos de nome criativo, publicados por editoras de grandes ambições comerciais e poucos escrúpulos. Esses periódicos localizaram um nicho lucrativo: pesquisadores incautos ou oportunistas, ansiosos por ver suas pesquisas, de qualidade dúbia, publicadas, e assim poder avançar suas carreiras. Muitas revistas operam como armazéns para estocagem de conhecimento duvidoso.

Revista científica

Publicação do Philosophical Transactions do ano de 1666, conhecida como ao primeiro jornal de divulgação científica (Henry Oldenburg – Philosophical Transactions)

A agenda de editores de periódicos do campo da Administração é frequentemente pautada pela caça aos leitores. As principais editoras contam com especialistas em mídias sociais para promover novos artigos. Websites são frequentemente remodelados para atrair mais visitantes.

Textos que tratam de temas populares são disponibilizados, como aperitivos, visando atrair leitores. Assim como empresas perseguem obstinadamente o aumento de seus lucros, periódicos científicos buscam aumentar seu fator de impacto, um índice que reflete quanto os artigos publicados são citados em outros artigos.

Os esforços de alguns periódicos para ajudar a abrir os portões da torre de marfim são louváveis, mas com frequência soam cômicos. Recentemente, um periódico de sólida reputação disponibilizou um estudo acerca dos cães da família Obama a partir do conceito de biopolítica, do pensador francês Michel Foucault. Aposta arriscada.

Periódicos científicos substituem, para as universidades, os departamentos de pessoal, a atestar a capacidade de publicação dos pesquisadores e assim validar sua reputação e sua progressão na carreira. Entretanto, são substitutos pobres para avaliações de desempenho. A métrica do fator de impacto é reducionista, incapaz de refletir a diversidade e a complexidade da atividade de pesquisa.

Diante das questões sociais e ambientais prementes, a ciência talvez precise de menos veículos, porém veículos mais sérios, seletivos e rápidos, que a apoiem em sua missão de gerar impacto social, e não publicações antiquadas a serviço de pequenos interesses comerciais ou corporativistas.

Clique aqui para ler o artigo original na íntegra.

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