Dejours: preconceito e produtividade.

Ética & Credibilidade.

Desde a era dos engenheiros (Taylor, Ford, Toyota) tem-se a estupidez como atributo do trabalhador que executa tarefas. Insiste-se sobre a necessidade de adestrar à exaustão e sobre a imposição de controles aos supostamente ineptos.

Christophe Dejours, psiquiatra e psicanalista; fundador da disciplina “Psicodinâmica do Trabalho”, mostrou que isto é mera superstição. Como os preconceitos derivados das diferenças visíveis – cor da pele, aspecto físico, sexualidade – o preconceito intelectual é uma crendice nefasta para a economia, para a sociedade e, claro, para a existência humana.

Todo e qualquer trabalho requer o uso da inteligência, da argúcia, da métis. Costuma-se esquecer ou ignorar que tanto na poïesis, o trabalho criativo, como no Arbeit, o termo alemão para o trabalho físico, está presente o Werk, o trabalho vivo, a execução de tarefas.

Não há exclusividade nem separação no uso da inteligência. Aqueles que concebem o produto e a forma de ser gerado são tão sujeitos à incompetência quanto aquele que produz efetivamente. O operário, que deve decidir sobre o que os robôs não podem calcular; o escriturário, que deve se haver com normas contraditórias; o médico, que deve diagnosticar sem ter elementos suficientes para isto, usam a razão de forma diversa, mas não deixam de usá-la.

A estultice não é privativa de uma profissão ou de um estrato laboral. Qualquer que seja o sistema de geração de bens, de serviços e de ideias, inexiste a excelência absoluta. O ser humano é imperfeito. Ninguém foi ou será capaz de trabalhar com perfeição absoluta (per-feito = feito completamente). O conceber, o planejar, o executar, o avaliar são tão sujeitos ao erro como o operar, o transportar, o verificar, …

Mesmo o trabalho mais humilde exige o concurso da inteligência. Não há ordem que não precise ser entendida, não há prescrição que não precise ser interpretada, não há norma que não requeira ser extrapolada. A mais sistemática das tarefas a serem realizadas apresenta ao trabalhador anomalias, imprevistos, panes, disfunções, bugs. Todo trabalhador tem que se esforçar para fazer face ao não predito, ao inaudito, ao desconhecido.

Bureaucracy – por Mark Burgess

Toma-se o operário, o burocrata, o servidor como pobres de espírito, culpados a priori pelos “erros humanos”. Propaga-se uma asneira: não há erro que não seja humano. A não ser que se admita que Deus tenha falhado ou que se acredite que trolls, gnomos, elfos, goblins e aparentados rejam a natureza para a tornarem errática e bizarra.

Por definição, inexiste falha que seja proposital (a sabotagem e o luddismo não são ações falhadas, ao contrário), e os incompetentes estão em todos os estratos organizacionais. Não há exceções.  A incompetência não é um caso ao nível da produção. Um caso universal é uma contradictio in terminis.

A experiência, científica e clínica, da psicologia do trabalho mostra que negar esta evidência é incitar a cólera, a irritação, o esgotamento. É produzir a angústia, a depressão, enfim, os sintomas das enfermidades psíquicas tão frequentes entre os trabalhadores de hoje.

Depreciar a tarefa e o resultado do esforço humano revela uma ignorância das implicações da razão e do sentimento sobre os sistemas produtivos. O trabalhador, ainda que feito animal ou robotizado, como o escravo, como o servo, como o burocrata, como o operário não especializado, se liga emocional e afetivamente ao que faz. As pessoas prezam o próprio trabalho; o processo e o resultado da produção. Reagem quando os veem desdenhados ou destruídos.

A obra do psiquiatra Dejours transcende a sua profissão. É essencial, dentre outros motivos, porque não cessa de evidenciar como e por quê o menosprezo pelo trabalho operacional, de si eticamente injustificável, é gerencialmente nefasto e economicamente contraprodutivo.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Cherques, Hermano Roberto Thiry (2004). Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: Editora FGV.

Dejours, Cristophe (1992). A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. Tradução de Ana Isabel Paraguay e Letícia Leal Ferreira. São Paulo. Oboré.

Dejours, Cristophe (1993). Travail, usure mentale. De la psychopathologie à la psychodynamique du travail. Paris: Bayard.

Dejours, Cristophe (2004). Cristophe Dejours: da psicopatologia à psicodinâmica do trabalho. Selma Lancman & Laerte I. Sznelman (organizadores). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz/Brasília: Paralelo 15.

Dejours, Cristophe (2004). Le Facteur humain. Paris. P.U.F

Dejours, Cristophe (2013). Travail vivant. 2 vols. Paris. Payot
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