Mobilização mesmérica.

Perplexidades & Filosofia.

Franz MesmerO suábio Franz Anton Mesmer, aliás Friedrich Mesmer, aliás Franz Mesmer (1734-1815), médico, advogado, músico, charlatão e psicólogo brilhante foi o criador da teoria do magnetismo animal e da pajelança conhecida como mesmerização.

Estudioso do histerismo, Mesmer casou com uma rica herdeira détraquée, Maria Anna von Bosch, o que lhe permitiu transferir-se para Paris. Instalado, passou a curar pessoas mediante a liquefação do fluido sutil que, como se sabe (ou não se sabe), corre em todos os corpos humanos. A fluidificação, segundo Mesmer, permitiria corrigir as enfermidades decorrentes da interrupção das correntes do imponderável líquido. Para tanto seria requerida e suficiente a excitação dos polos magnéticos dos pacientes em crise, onde quer que tais polos se localizassem.

As sessões de cura eram inicialmente individuais. Os personagens, reunidos em torno de um balde, vestiam trajes lilás resplandecente. Ao som de gaitas de vidro (as glassharmonica), submetiam-se às estimulações, que só podemos imaginar quais fossem. Manifestavam-se, então, fenômenos contagiosos de “crise magnética”, durante os quais as mulheres da melhor sociedade parisiense perdiam o controle tomadas de risos “histéricos”, resfôlegos, convulsões e, ao fim, de sensuais desmaios.

Em 1780, com mais pacientes do que ele podia tratar individualmente, Mesmer introduziu o método coletivo de tratamento do “balde”. Os pacientes, trinta ou mais, ligados por cordas, sentavam-se em torno de uma caixa circular de carvalho de cuja tampa perfurada saiam hastes metálicas, que se ligavam com as partes doentes do corpo. Na parte inferior da caixa, sobre uma camada de tiras de vidro e limalha de ferro, alinhavam-se simetricamente garrafas cheias, algumas apontando para o centro, outras para o perímetro. Mesmer, ajudado por lindas jovens, sempre vestidos de seda lilás, tocava com uma barra de ferro de uns 30 cm as partes doentes dos pacientes. Pelos relatos que temos, a descabelada histeria com que terminavam as sessões seriam dignas de um filme de Fellini.

Acusado de charlatanice, Mesmer foi inquerido por uma Comissão nomeada pelo rei da França. Constituíam a Comissão, dentre outros, os sábios da Academia de Ciências de Paris Jean-Sylvain Bailly, que havia calculado a órbita do cometa Halley, Joseph-Ignace Guillotin, o inventor da guilhotina, Benjamin Franklin, o pai da pátria e da ciência americana, e Antoine-Laurent Lavoiser, o que demonstrou que na natureza nada se cria, tudo se transforma.

Em quatro meses os académiciens concluíram que as curas de Mesmer não passavam de fantasias e autossugestão. O relatório, enviado à polícia, dizia que a mesmerização nada mais era do que a exploração do sentimento de esperança em um mundo cheio de desgraças. Textualmente a Comissão concluiu que “o mesmerismo atrai as pessoas pelas suas esperanças que as tocam mais de perto: a de conhecer o futuro e a de prolongar seus dias”.

Mesmer, um precursor malgré soi do papel do imaginário na psicologia contemporânea, não foi pessoalmente execrado. À época, Lavoisier (1743-1794) aventou um paralelo entre as crises comunais das sessões mesmerianas e o emocionalismo das massas, com as consequências de entusiasmo embriagado com que os adeptos se diziam curados (… l’enthousiasme du courage ou l’unité d’ivresse …).

Os generais, justificou Lavoisier, conseguem este tipo de atitude rufando os tambores e soando os clarins, os empresários artísticos contratando uma claque para iniciar e dirigir o aplauso nos espetáculos. Fosse vivo, Lavoisier acrescentaria à lista os marqueteiros políticos que incitam a multidão com slogans – antes o “viva”, hoje o “fora” -, e os líderes nas organizações, que fascinam os papalvos com incentivos e recompensas.

Os mesmerizados de hoje não se vestem de lilás nem ouvem harmônicas de vidro, mas, como os de ontem, alinham o seu futuro ao interesse alheio. Assim como o asno, a quem a cenoura só é dada quando já não pode repor suas forças, os magnetizados exaurem sua vida puxando a carroça dos generais da banda, dos artistas em voga, do líder carismático, do comissário do povo, do capital triunfante.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Darnton, Robert (1984). La Fin des Lumières: le mesmérisme et la Révolution. Paris. Librairie Académique Perrin.

Gould, Stephen Jay (1992). Viva o Brontossauro: reflexões sobre a história natural. São Paulo. Cia. Das Letras.

Stengers, Isabelle (2002). L'Hypnose entre magie et science. Paris. Les Empêcheurs de penser en rond. 

SRM 115B-204 – (s/d). Rapport sur les expériences de Mesmer. Mémoires, observations et correspondance médicale adressés à la SRM, accompagnés d'instructions et de notes des commissaires chargés de leur traitement. Archives et manuscrits de la Bibliothèque de l’Académie Nationale de Médecine. http://www.bibliotheque-institutdefrance.fr
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