O tempo do kronos, o esquecimento do kairós.

Perplexidades & Filosofia.

Roman Galley Color by joaoMachayEm 24 de junho de 1812, quando a Grande Armée atravessou o rio Niemen e marchou Lituânia adentro, Napoleão tinha as razões e os meios para crer que venceria rapidamente a Campagne de Russie. Estava errado. Passados seis meses, seus exércitos e sua carreira congelavam no inverno de Moscou.

Napoleão nunca se perdoou.

Menos de dois séculos depois, no auge da bolha dot com, dezenas de milhares de jovens escolheram seguir carreias tecnológicas. Estourada a bolha, parte significativa destes profissionais se amarguram em subempregos.

Estes iludidos não se sentem culpados. Entendem contratempo como sinônimo de acidente.

A era napoleônica passou. A cultura técnica contemporânea aceita com naturalidade os erros no cálculo das ocasiões. Desculpa-se pelas oportunidades perdidas e pelas ações precipitadas alegando as premências e as correrias da vida. Não se dá conta de que a qualidade da decisão e a oportunidade da ação são indissociáveis.

Uma decisão divide o tempo. Dēcidere significa cortar (caedere) fora (). A palavra “oportuno”, opportūnus refere à fração de tempo apropriada a fazer avançar a pesada galera latina até (op) a segurança do porto (portūnus). Esta etimologias mostram que os antigos tinham viva consciência que a decisão ou bem é oportuna ou é desastrosa.

Não é mais assim. Somos competentes em determinarmos nossas ações práticas, mas, ao contrário dos antigos, abdicamos do cuidado devido aos nossos investimentos pessoais e sociais. Perdoamos a nós e aos outros o esquecimento de que o tempo sequencial que se mede, e o tempo psicológico, que se vivencia, não são de mesma natureza.

Dominados pelo Kronos, esquecemos o Kairós, o momento em que algo especial acontece, em que a decisão muda o curso dos acontecimentos.  Kronos, o rei dos titãs, que tudo destrói, é previsível, quantitativo, enquanto Kairós, a divindade da intuição do agir, é imprevisível, qualitativo.

Talvez a responsabilidade por este descuido caiba à Saulo de Tarso, ou São Paulo, um cristão de cultura grega, um hebreu romanizado, que degradou o kairós para explicar ou alimentar a fé na parusia, a segunda vinda do Cristo, o tempo da espera e da esperança[1]. São Paulo, e a cristandade com ele, confortou a dúvida ansiosa mediante a supressão da previsibilidade dos adventos do Salvador, do fim do mundo e da morte física. Fez do kairós, simultaneamente, o momento do esperado e do inesperado, do negativo, que nunca chegará, que dura para sempre, que se identifica com a fé insensata.

Esta acepção extravagante vigorou até Nietzsche[2] que requalificou o kairós como o momento da saída do habitual, do nascimento do espírito livre, do desprezo pelo “dever”, do despertar de um desejo vulcânico de peregrinar, de transcender.http://www.contioutra.com/rob-gonsalves/

Heidegger[3] , já no fim do século XX, deu à noção de Nietzsche o valor fenomenológico do acontecer essencial, da tomada de consciência, que nós, os que aí-estamos, temos o dever encontrar. Restaurou, como era do seu feitio, à sabedoria da Grécia clássica. Mas, fora da filosofia poucos dão atenção aos termos e aos momentos da vida.

Alega-se a velocidade dos acontecimentos, da premência em que as coisas precisam ser feitas, da urgência em se agir para justificar a desatenção com o kairós existencial. Prefere-se não lembrar que a vida com sentido é a que não se deixa violentar pelas pressões financeiras, tecnológicas, institucionais, sociais do momento. Coagidos pelo kronos, desprezamos os remansos do adiamento, da espera, da reflexão.

Brecht escreveu, em um poema admirável: “Do rio que tudo arrasta/ Se diz que é violento/ Ninguém diz violentas/ Às margens que o cerceiam[4].” É isto mesmo. Perdemos o kairós porque esquecemos todos que a violência das corredeiras não é uma qualidade intrínseca das águas, mas que procede da estreiteza das margens, das contenções sociais, políticas, econômicas que impedem que o rio da vida se espraie, se acalme.

Perdemos o kairós pelos vínculos, marcas e fronteiras que, resignados e inermes, recusamos alargar ou transcender.

UTILIZE E CITE A FONTE.
[1] Epístola aos Romanos, XIII: 11

[2] Nietzsche, Friedrich (2005). Além do bem e do mal. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo. Companhia das Letras

[3] Murchadha, Felix O. (2012). The Time of revolution: Kairos and Chronos in Heidegger. London. Bloomsbury Academic

[4] Brecht, Bertolt (2000). Poemas 1913-1956. São Paulo, Editora 34
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