O Trabalho Inqualificável.

Trabalho & Produtividade.

Ao longo das últimas décadas, o nível de qualificação para o trabalho descreveu uma trajetória parabólica. Ao trabalho sem qualificações, majoritário nos esforços de produção até a primeira Grande Guerra, sucedeu o trabalho qualificado, do operário adestrado. Em meados do século passado, graças ao esforço qualificante da educação técnica, chegou-se ao ápice do enobrecimento do trabalho. Sobreveio, então, o declínio: a gradual padronização que pende para a degradação do trabalho meramente quantificado.

Neste século, pela primeira vez, a Schulung, o treinamento, sobrepujou a Bildung, a formação. Estamos próximos, se é que já não ultrapassamos, ao nadir da qualificação, a inversa da máxima da curva que foi a dos Mestres da era pré-industrial.

Nas antigas profissões um aprendiz era iniciado por sete anos nos volteios das mãos de seu ofício antes de apresentar uma obra que o qualificaria como ”Companheiro”. A compagnonnage, associação de operários para fins de formação profissional e de solidariedade, acolhia o trabalhador que já não era Aprendiz. O Companheiro prosseguia se aperfeiçoando em sua técnica por mais cinco ou dez anos. De modo que apenas ao final de I2 a I8 anos de aprendizados e exercícios ele podia pretender realizar uma obra-prima, a primeira obra individual, que o tornava apto a ser Mestre. “O que então se denominava gênio … explica Sloterdijk, … era somente a alusão a casos de encurtamento espetacular do tempo de exercício médio “.

Hoje o treinamento, em lugar da formação, promove o acesso acelerado de qualquer um ao mandarinato. A chefia não é mais atribuída a um mestre, mas a um ignorante do fazer, um acumulador de expedientes e fórmulas, que distribui ditames sem ter vivências e é incapaz de interpretar o mundo que o rodeia.

Desde os falanstérios de Fourier, passando pelas “casas comuns” da União dos Arquitetos Contemporâneos, da finada URSS – que pretenderam “suprimir a individualidade própria da sociedade burguesa” (Figes) – até o taylorismo, o fordismo, o stakhanovismo, o toyotismo, o kaizen, etc. o objetivo da qualificação, se e quando houve consciência de um propósito, era produzir mais, com maior conforto e menor custo, para o maior número de pessoas.

Se esta intenção foi eticamente justificável – facilitar a comutação do trabalho mecânico, penoso e vil por máquinas trabalhadoras – o seu fracasso parece evidente: em muitos casos vem substituindo a atividade humana criativa por trabalho automático, descarnado e sem sentido.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Sloterdijk, Peter (2011). Tu dois changer ta vie, trad. Olivier Mannoni. Paris. Libella. p. 418. 
Figes, Orlando (1998). A people's tragedy: A history of the Russian Revolution. London. Penguin Books.
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