Trabalho & Tecnologia: questões éticas.

Trabalho & Ética.

As discussões éticas associadas à relação entre trabalho e tecnologia podem ser distribuídas em cinco grandes grupos: o da supressão de postos de trabalho, o da exclusão econômica, o da obsolescência dos conhecimentos, o da instrumentalização dos seres humanos e o da sujeição disciplinar.

Supressão dos postos de trabalho

Tema central: A substituição de mão-de-obra por tecnologia afeta diretamente a qualidade de vida e capacidade de consumo dos substituídos. Embora não seja possível aferir com precisão os seus efeitos, é lícito afirmar que a extinção dos postos de trabalho decorrente da tecnologia implica em um ciclo de empobrecimento, alimentado pela retração na demanda média dos trabalhadores-consumidores.

Exclusão

Tema central: A habilitação para uso de instrumentos de comando numérico, a capacitação para atividades de controle e a manutenção das máquinas autorreparantes  exigem uma especialização que está fora do alcance de grande parte dos trabalhadores. Formados em uma cultura técnica arcaica, os mais velhos e os menos qualificados tendem a ser expelidos do sistema produtivo. As degradações econômica e moral que sofrem afetam a vida familiar e reduzem, a médio e longo prazos, as oportunidades de acesso ao trabalho formal de parte significativa das novas gerações.

Obsolescência

Tema central: A velocidade e a imprevisibilidade da evolução tecnológica acarretam riscos para o trabalho como meio de subsistência material. Os padrões de formação de mão-de-obra estão se tornando rapidamente obsoletos. A regra geral é que, desde o ensino básico até o universitário, passando pelas escolas técnicas, estamos formando pessoas para um ambiente tecnológico ultrapassado. Muito do que se ensina, se aprende e se pratica hoje pode ser anulado pela autorreplicação  de máquinas (controlada e incontrolável), mas, também, por App’s, por biotecnologias (como a dos robôs moleculares) e por nanotecnologias.

Instrumentalização

Tema central: As hierarquias do trabalho, com seus capatazes, chefes, gerentes vêm, desde meados do século passado, sendo substituídas por formas diferenciadas de ordenamento. As estruturas em projetos, em redes neurais, etc. , além do teletrabalho e do trabalho online, propendem a instrumentalizar o trabalhador. Se nos “tempos modernos” o trabalhador foi comparado a uma peça da engrenagem, padronizado e intercambiável, nos tempos da alta tecnologia, se verifica uma migração: do componente, para o instrumento. Não só o trabalhador é substituível como uma peça, mas é descartável, como um kit de produção.

Sujeição

Tema central: As novas tecnologias, principalmente as de comunicação, provocam mudanças bruscas na hierarquia dos valores. Colocam temas como o impacto sobre o ambiente e as modalidades de interação social. Abrem possibilidades de liberação e da emancipação do trabalho, mas, também se fecham sobre novas formas de escravização e de servidão. Alteram o valor atribuído a fatores como a privacidade, a publicidade enganosa, as formas de difamação, as fraudes, … que incidem sobre as relações capital/trabalho, trabalho/trabalho, trabalho/sociedade e trabalho/família.

Estado das discussões filosóficas

A vertente filosófica destes debates gira em torno de temas tradicionais. O tempo, (existe uma violação econômica do tempo psíquico e do tempo livre?); o lugar (onde é a Internet?); a disposição psicossocial (o sujeito no mundo tecnificado foi reduzido à objeto?); a dicotomia natural/artificial (as próteses de força degeneram a humanidade?); as distinções corpo/espirito e matéria/informação (o que deve prevalecer, o átomo ou o bit?). e assim por diante.

A filosofia não é uma ciência de soluções, mas está descumprindo uma obrigação primária: a do esclarecimento do confronto entre significação universalista, centralizada, unívoca (“a tecnologia”, “o trabalho”) e a irredutível pluralidade, heterogeneidade e diversidade intencional dos fenômenos sob estes títulos.

A tarefa elementar da metaética se arrasta, presa ao atoleiro ideológico. Como o aprendiz de feiticeiro que vê a sua vassoura sair voando sem controle, os acadêmicos atrelam-se a questões bizantinas. Dão piruetas eruditas, sem chegarem a responder liminarmente à questão conceitual prévia às discussões éticas: afinal, quando se fala de trabalho e quando se fala de tecnologia, do que, mesmo, se está falando?

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