Fé & heurística.

Epistemologia.

Ortega y Gasset definiu “ideia” como aquilo que se forja no ser humano quando a crença vacila, quando não podemos mais “contar com”. Toda poïesis, toda criação humana – as ciências, a filosofia, as religiões, as artes – deriva de instabilidades da fé, de oscilações das certezas. Por outro lado, a descrença e a descoberta não coexistem. Sem atos de fé não haveria suposições, hipóteses, teses, conjecturas.

A força heurística da fé é polissêmica. Os exemplos se multiplicam. Tomemos, a título de ilustração, o caso de Saint-Denis, o patrono da França.

Por volta do ano da graça de 240, Denis (Dionísio) foi enviado de Atenas para a Gália. Sua missão: cristianizar e ilustrar os pagãos de Paris. Elevado à bispo de Lutecia, fez-se incômodo aos dirigentes galo-romanos. Tanto que estes o mandaram decapitar, o que foi levado à efeito mediante um só golpe de espada tipo durendal. A degola ocorreu estando o futuro santo em pé onde hoje repousa o Bistrot Le Progrès, na rue Yvonne-le-Tac (Metro Pigalle).

Segue-se que Denis, mártir acéfalo, agarrou a própria cabeça e caminhou por Montmartre (mons Martyrum) afora, entoando canções pela boca da cachola decepada. Andou até a fonte, que ainda hoje existe, na esquina das ruas Girardon e de l’Abreuvoir (10 minutos, conforme o Google Maps).

Crer nesta narrativa é um ato de fé, uma volição pela qual se adota como verdade o que não é nem racionalmente demonstrável, nem evidente. Os atos de fé, seja nos relatos de prodígios, seja nas teorias, seja na nossa percepção são a base imprescindível do interesse investigativo. Já a dúvida é o propelente que leva à descoberta.

A distinção teologal entre a fé implícita e a explícita convém ao caso porque autoriza, mesmo ao católico de estrita observância, a duvidar da primeira sem duvidar da segunda. A problemática crença de que um descabeçado possa caminhar está implícita – mas não fundada – na crença inquestionável de que a divindade tudo pode. Tem-se, assim, que a tradição de Saint-Denis, ilustra na fé, a base, e na dúvida, o combustível para o agir heurístico.

Passados 600 anos, a lenda de Saint-Denis ensejará outro exemplo heurístico da fé. Ocorreu que o bom rei Dagoberto, além de vestir as calças ao contrário (Le bon roi Dagobert, Avait sa culotte à l’envers, …. ), teria tido visões da cabeça cantante. É possível que estas visões, decorrentes dos delírios da fé, tivessem dado ânimo às suas realizações. Sim, porque a lenda da idiotia de Dagoberto é comprovadamente falsa. Primeiro, porque não se usavam culotes no século VII, que só apareceram 1000 anos após. Segundo, porque, último dos reis merovíngios, Dagoberto I foi quem centralizou e organizou os diversos domínios que vieram a formar a França.  O relato dos seus feitos demonstra a terceira força heurística da fé: o entusiasmo, a convicção infundada de que é possível fazer, descobrir, erguer algo inteiramente novo.

Transcorridos os séculos, um quarto elemento heurístico decorrente da fé se juntará aos demais. Documenta-se a partir da baixa Idade Média, que Saint Denis teria o dom da cura. Prioritariamente sararia dores de cabeça, uma decorrência óbvia do seu miraculoso caminhar. Secundariamente, o que é menos compreensível, seria o seu dom de curar mordidas de cachorro. Este fenômeno terapêutico exemplifica o poder heurístico do desligamento, isto é, da aceitação pristina sem evidência bastante. Como insistiram os escolásticos, Duns Scot e Friedrich Heinrich Jacobi, o caráter prático da fé consiste em sua independência da vontade, em derrubar os limites e incertezas da razão. Se a invocação do degolado continua sarando mordidas até de pitbull, não há, para o curado, que duvidar, e para o descrente, senão continuar investigando o fato ou provar a farsa.

Os efeitos ilustrativos do caso prodigioso de Saint-Denis prosseguem. Em um sarau de domingo, no frio outono de 1739, Melchior, Marquês de Chalancon, Cardeal Polignac, relatou, convicto, o milagre à Marie Anne de Vichy-Chamrond, Marquesa du Deffand. Irônica e sutil, Madame teria observado: « Monseigneur, en de telles affaires, il n’y a que le premier pas qui coûte ». O comentário de que, uma vez que se acredite que um descabeçado cantante tenha dado um passo, o caminhar subsequente é crível, dá a quinta força heurística da fé: o desassombro ante as convenções e o estabelecido. Nem a incredulidade, nem a mais alta epistemologia têm como chegar às causas últimas. Só a fé está presente na sanção da ciência, como escreveu Johann Gottlieb Fichte (1762—1814).

A força inspiradora do milagre de Saint-Denis, as visões de Dagobert I, que erigiu as bases da nação francesa, a crença popular no poder curativo e a frase inspiradora de Marie Anne dão testemunhos da importância da fé heurística como provedora do estímulo, da dúvida, da confiança, da isenção e do desassombro, os elementos essenciais ao descobrimento original.

A polêmica caminhada dionísica evidencia que, embora por tudo o que sabemos e possamos provar, o passeio acéfalo não se deu, não nos é possível provar a mesma coisa pelo que não sabemos: os mistérios da natureza, o acaso, os desígnios divinos, por exemplo.

Ademais, existe a possibilidade de que uma pessoa em pé, degolada de um só golpe, logre dar ou completar um passo antes de cair, e de que uma cabeça decepada ainda emita um estertor que pareça um canto. Se tiver sido este o caso, a lenda de Saint-Denis terá que ser tomada como um exagero piedoso e o nosso sorriso incrédulo deverá se dissipar no silêncio que precede a descoberta.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Duns Scot, John (1979). Seleção de textos. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural.

Fichte, Johann Gottlieb (1987). The Vocation of Man. Cambridge, MA. Hackett Publishing Company

Jacobi, Friedrich Heinrich (2014). Friedrich Heinrich Jacobi, in Stanford Encyclopedia of Philosophy. https://plato.stanford.edu/entries/friedrich-jacobi/

Ortega y Gasset, José (1994). Ideas y creencias. Obras Completas. Madrid. Alianza Editorial

Vigan, Valéry (2004). La France pittoresque: l'encyclopédie du temps jadis.  La France pittoresque. Amazon France.
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