Emancipação & trabalho.

Trabalho & Produtividade.

emancipacaoEm 1798, nas proximidades de Aveyron, no Midi-Pyrénées francês, foi encontrado um menino-lobo.

O naturalista Pierre Joseph Bonnaterre (1752; 1804), especializado em répteis, anfíbios e insetos, deu-lhe o nome de Victor e o civilizou, ou, pelo menos, tentou civilizá-lo.

No processo, ficou evidente que a humanidade do homem, aquilo que cremos que nos diferencia dos animais, não é inata. O minucioso relatório de Bonnaterre é a prova do que J.J. Rousseau havia descrito em 1762, no Émile: o ser humano é um migrante escapado dos perigos e desconfortos do estado natural, que paga um preço pelo refúgio: o da sua liberdade.

O homem civilizado é o cativo das convenções, das instituições, do trabalho. Toda e qualquer associação humana prefere súditos, cidadãos, funcionários. Gente manietada à ordem social e à produção.

Os relatos sobre Victor e os demais meninos-lobo (“infans”), que lograram sobreviver isolados, demonstram que a comunidade dos homens não é como a dos animais. O ser racional não tem instintos. Ou os sufoca. Lévi-Strauss argumenta que muitos desses meninos-lobos foram abandonados por serem deficientes mentais. O ser humano tem pulsões, desejos e sentimentos. Lobos e homens, alcateia e sociedade são entidades com predicados distintos.

Aspiramos a autarkeia grega, o bastarmo-nos a nós mesmos, a volta à natureza. Sonhamos com a vida idealizada do náufrago Alexander Selkirk, romantizado por Defoe como Robinson Crusoé. Fantasiamos as cenas idílicas de liberdade de Watteau ou de Gauguin, mas não dispensamos o aquecimento, a refrigeração e as telas antimosquito. Nos rendemos à convivência, ao emprego, à todo liame que nos traga segurança e conforto.

Em toda coletividade humana o direito de renúncia ao mundo é violado pela solidariedade forçada, pela imposição identificadora. O homem que se quer solitário é coagido pelos outros, que dele dependem, a produzir, a ser rastreável. Como o gado.

A cerca é desnecessária. A alternativa de passar para o lado negro, para os dominantes, para os que vivem presos a extração da humanidade alheia, não liberta. O senhor, demonstrou Hegel, está sempre preso ao escravo que o serve. A emancipação, o salto para fora da comunidade, requer antever como será o mundo, como será a economia, como serão as organizações, como seremos nós mesmos, de quê sobreviremos. Exige que imaginemos tudo isto da forma mais objetiva possível. Mas este requerimento é um contrassenso: objetividade e imaginação não são compatíveis.

Como os personagens de Kafka, nos equilibramos na dúvida entre liberdade e exclusão. Poucos conseguimos trabalhar fora das peias organizacionais, e o trabalhador vinculado deixa de ser homo faber: atem-se à condição de animal laborans. Um ser rudimentar, que espreita o perigo do insulamento.  Um lobo da alcateia, que se anula para escapar das ameaças da selva econômica.

As religiões e as ideologias pregam a salvação pela conformidade e pelo trabalho. Mas a conformidade e o trabalho não são, e não têm em si mesmo um poder redentor. A emancipação, se e quando ocorre, é a do vínculo: nos libertamos das convenções, das instituições, do trabalho, não por seu intermédio.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Cherques, Hermano Roberto Thiry (2003). Hegel: A Mútua Implicação do Trabalho e da Racionalidade. Revista Eletrônica de Gestão Organizacional. Volume 1, Número 1, Janeiro/Junho.

Defoe, Daniel (2011). As aventuras de Robinson Crusoé. Tradução de Albino Poli Jr.. Porto Alegre. L&PM Editores

Kafka, Franz (2013) Obras escolhidas. Tradução de Marcelo Backes. Porto Alegre. L&PM Editores.

Lévi-Strauss, Claude (1982). As estruturas elementares do parentesco. Petrópolis. Vozes

Rousseau, Jean-Jacques (2014). Émile ou De l'éducation. Saint Julien en Genevois. Arvensa Éditions.

Strivay, Lucienne (2006) Enfants sauvages : Approches anthropologiques. Paris. Gallimard.
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