Preliminares heurísticas: experimentos mentais.

Epistemologia.

As ferramentas heurísticas preambulares são a imaginação e a abstração. Ambas conformam experimentos mentais. A distinção principal entre estes experimentos e os reais está em que nos primeiros as circunstâncias não se descrevem, senão que se estabelecem e a ação se conjectura, não se presencia.

Os experimentos mentais datam dos primórdios do pensamento ocidental. São da ordem do contrafático (e se for assim?), e do especulativo (o que ocorreria?). Têm origem em Sócrates, que pergunta aos passantes na Ágora, nos diálogos platônicos, em Aristóteles. Atingem seu apogeu nas “obrigações”, uma prática da escolástica medieval.

A obligatio foi um jogo formalizado, em que os contendores, independentemente da sua opinião e credo, eram obrigados a assentirem, a dissentirem e a duvidar de uma proposição. O debate se dava entre duas figuras: o respondens, que mantinha uma certa intenção durante a disputa, e o opponens, que se esforçava por leva-lo à contradição (redargutio). O respondens perdia se e quando fosse induzido por seu adversário a admitir o oposto da proposição, ou se e quando aceitava e recusava ao mesmo tempo qualquer outra conjectura. Ganhava no caso inverso, não importando se o conteúdo do que sustentava fosse verdadeiro ou não.

O jogo tinha várias modalidades. A mais comum, a positio, fazia intervir três atos: conceder, recusar, duvidar; e duas atitudes proposicionais: saber e ignorar. Estes atos e atitudes continuam a serem utilizados na heurística de várias ordens, como na jurídica, na hermenêutica, na descoberta laboratorial, e, genericamente, na formação de portfólios. Mesmo que realizados informalmente, os jogos mentais põem em evidência as lacunas e redundâncias nas teses, hipóteses e suposições. Expõem as fragilidades dos métodos que se tem a intenção de empregar. Desanuviam dificuldades técnicas. Fazem aflorar objetos originais.

Não há que insistir sobre a resultado “científico” do experimento mental. Trata-se tão somente de um exercício preparatório. Também não é o caso de o trocar pela verificação e pela crítica. Aristóteles, talvez empolgado com sua própria genialidade especulativa, deixou de conferir. Caiu no disparate. Insistiu que o sangue das fêmeas é mais negro que o dos machos, que o porco é responsável pela rubéola, que a um elefante que sofre de insônia deve-se esfregar uma mistura de sal, azeite e água quente, e que a mulher tem menos dentes do que o homem.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Cohen, Martin (2010) El escarabajo de Wittgenstein. Traducción de Gabriel Fermín del Pilar Aranaiz y Francico Miguel Cerén Gómez.  Madrid. Alianza Editorial.

Knuuttila, S. and M. Yrjönsuuri (1988). Norms and action in obligational disputations, in, J. Biard and O. Pluta, ed. Die Philosophie im 14. und 15. Jahrhundert. In memoriam Konstanty Michalski (1879–1947), B.R. Grüner, 1988 pp. 191–202.
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