Derrida: trabalho & “différance”.

Trabalho & Epistemologia.

focus face optical illusionO termo  différance (um homófono à différence) foi cunhado por Jacques Derrida (1930, El-Biar, Argélia; 2004, Paris). Significa a resultante da operação de “fazer diferir”, na tripla acepção de distinguir, de postergar e de discordar.

A  différance não é um conceito, mas a forma de fazer surgir um conceito. A técnica consiste em expor a fragilidade dos atos de fala. Aplicado ao conceito “nação”, por exemplo, evidencia imediatamente a distância entre o entendimento de nação-política, daquele de nação-cultura. Do que se trata, afinal, quando dizemos, ou quando nos dizem “a nação espera que…”, a “nação está ameaçada por…”?

Outro exemplo: o conceito de casa pode ser o de um chalé, o de um apartamento, o de uma cabana ou o de uma mansão. A diferença está no contexto, na biografia, na inserção daquele que enuncia, …. O diferir revela a interseção entre o aparecimento e o desaparecimento da ideia. Põe a descoberto o intervalo entre a ausência de uma presença e a presença de uma ausência.

Não importa, ao diferir, criticar a língua nem a razão – criticar os logoi – mas desestabilizar uma identidade. O propósito é o de ir além do significado, alcançar a significação, o saber o que isto ou aquilo significam para alguém.

A técnica é bastante intuitiva, mas tão livre que se torna complexa. Derrida “reconfigura” palavras. Desloca um substantivo para um verbo, um adjetivo para um substantivo. Decompõe e mostra a interpenetração. Por exemplo: o que há de sonho no estado de consciência quando dizemos que estamos dormindo em pé e sonhando de olhos abertos?

Se, em um exercício preliminar, fazemos diferir o ato de trabalhar considerando apenas a dicotomia obra-labor de Hannah Arendt, o conceito de trabalho é imediatamente desestabilizado. Já não podemos afirmar ao certo o que se quer dizer quando se profere a palavra “trabalho”. Será o labor, a faina, a tarefa árdua e demorada, ou será o lavor, a ocupação que envolve esforço mental ou intelectual?…

O processo de diferir invade também o tempo. O que foi o trabalho e o que dele se disse teve uma significação no momento em que ocorria e no momento em que foi dito. Tem outra significação do que dele se pode dizer aqui e agora. Menos simples é diferir o que procede do futuro. Quando pensamos o trabalho, o nosso próprio trabalho, somos afantasmados, (hanté) pela memória, pelos rastros obsessivos do passado. Mas também somos assediados pela presentificação do futuro, pelos rastros do imaginário. Quando, mesmo preliminarmente, fazemos diferir o trabalho, somos chocados pelos traços do nosso saber obsoleto, da nossa habilidade perempta. Mas também, e simultaneamente, somos assediados pelo vir-a-ser da nossa incapacidade funcional, da nossa de-função. Somos assombrados pelos avantesmas dos não nascidos que virão para fazer o nosso trabalho.

Nosso estado mental, escreveu Derrida, está sempre em fluxo. Os conceitos que utilizamos, os conceitos que examinamos, aquilo que descobrimos e o que relatamos, já não são. Isto posto, ou bem escolhemos seguir pela via do objeto reduzido a uma definição interina, ou recaímos na repetição e no disparate, destino das epistemologias empiricistas e historicistas. A luz que foi lançada sobre o fenômeno já sempre se apaga. Para ser legítima, a tarefa de pensar o trabalho, ou de pensar o que quer que seja, terá que ser refeita. Indefinidamente, infinitamente.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Arendt, Hannah (2003). A condição humana. São Paulo. Tradução de Roberto Raposo. Forense Universitária

Derrida, Jacques (1991). Margens da filosofia. Tradução de Joaquim Torres Costa & Antônio M. Magalhães. Campinas. Papirus Editora.

Derrida, Jacques (2014). L'écriture et la différence. Paris. Points-Essais.
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