Pieper: o trabalho apropriado.

Trabalho & Filosofia.

No emaranhado de conceitos com que se pretende descrever a universalidade do fenômeno do trabalho há um sem número de incongruências, de lapsos, de imperfeições.

O trabalho é esforço produtivo? Mas um bancário produz exatamente o quê? O trabalho é esforço remunerado? Mas o que dizer do trabalho da dona de casa, ou do trabalho voluntário? E, afinal, o que o trabalho do bancário, da dona de casa, e do voluntário têm em comum entre si e com o trabalho do policial ou o do artesão? O trabalho de quem produz para si e para os seus é o mesmo trabalho de quem produz para os outros, para o governo, para a empresa, para o sistema? O trabalho do comerciante é igual ao trabalho do pedreiro, que produz a casa em que não vai morar?

Não há, de fato, sistema de designação que dê conta de tantas acepções e circunstâncias. E, no entanto, toda uma família de espíritos, aparentados por sua presunção, opostos por seus métodos ou seus fins, teima em ponderar sobre o trabalho em geral.

Desde Locke, talvez o primeiro a discorrer sobre o trabalho sem predicação, até Hegel, Kierkegaard, Marx, Heidegger, Burke, todos eles eludiram o universo do indizível. Franquearam o dever de elucidar o entendimento jamais íntegro, jamais finalizável do que vem a ser esta variedade de formas de agir que denominaram trabalho.

Um esclarecimento sobre a diversidade do trabalho veio de um setor desprezado do pensamento: o tomismo aristotélico. O filósofo alemão Josef Pieper (1904-1997) construiu um modelo de tipos de trabalho. Historiou a formação do conceito desde os pré-socráticos até o pensamento contemporâneo. Aferrado ao sistema classificatório tomista, Pieper identificou no corpora filosófico referências a apenas três modalidades de trabalho: o trabalho como atividade, o trabalho como esforço e o trabalho como contribuição social.

Há uma quarta modalidade, esquecida por Pieper. O trabalho dirigido à nossa própria elevação. Talvez seja esta a única modalidade de trabalho que faça sentido: o de não estarmos compelidos a abastecer uma nave que ruma para destino que ignoramos e sobre o qual nunca fomos consultados.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Pieper, Josef (1998). Leisure: the basis of culture. Trad. Gerald Malsbary. Indiana. St. Augustine Press.
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