O servidor público em sua armadilha.

Trabalho & Ética.

Há uma insistência surda em culpar o servidor pela desmoralização dos sistemas de ingresso e acesso na administração pública. A finalidade é perversa. Fazer da vítima o algoz.

A degradação moral que assistimos não decorre do servidor, mas da obsolescência dos ideais, da evolução dos esquemas de gestão, da ignorância sobre as mentalidades e da vilania dos governantes.

A ilusão de Hegel, que propôs a função pública como garante da universalidade do Estado, expirou sem nunca ter vigido. A idealidade weberiana do profissionalismo, da formalidade e da impessoalidade foi rebaixada à retórica dos discursos de posse.

A intenção meritória dos concursos de ingresso e de acesso sucumbiu ao networking que embaralha o governamental – aquilo que diz respeito à condução do Estado, e o público – aquilo que diz respeito à sociedade como um todo. A equalização nominal nos processos de admissão e promoção gerou um duplo efeito: o dirigismo de ingresso e a ditadura de arranjo.

Amedrontados ante a possibilidade de independência da máquina administrativa, os governos esmagaram o que não podem aparelhar. O terror de perder as condições de vida com que se habituaram fez dos funcionários presas fáceis das coações que viciam a possibilidade da transcendência, do espírito público, da dignidade republicana. Que calam ou isolam os intelectos isentos.

As alternativas de conduta que se apresentam ao trabalhador apanhado nesta armadilha são estreitas: o distanciamento psíquico via introspecção; o insulamento em círculos infensos à rapacidade dos governantes e o cinismo laboral, a farsa do apreço, que hoje é generalizada.

Cherques, Hermano Roberto Thiry (2008-2015). Evolução recente e situação atual dos sistemas de avaliação da produtividade do trabalho em organizações do setor público brasileiro. Relatórios de Pesquisa. Rio de Janeiro. FGV. CNPq.

Hegel, Georg Friedrich (1990). Princípios da Filosofia do Direito. Tradução de Orlando Vitorino. Lisboa. Guimarães. (FD § 246 e ss.)

Weber, Max. (2000). Ciência e Política: duas vocações. Tradução de Leônidas Hegenberg e Octany Silveira da Mota. São Paulo: Cultrix.

Weber, Max. (1978). Economy and Society: An Outline of Interpretive Sociology. Transl. Ephraim Fischoff et ali. Berkeley. University of California Press.
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