Repouso.

Trabalho & Filosofia.

No ano de 1885, em Roma, as escavações no monte Quirinal trouxeram à luz um bronze representando um pugilista.

Remanescente dos Banhos de Constantino, a obra é incrivelmente bem realizada. Os detalhes: a proteção das mãos e das genitais, a orelha, o dorso e a face com sinais das feridas, o nariz quebrado combinam perfeitamente com a expressão exausta de um lutador que aguarda pelo seu retorno à arena.

Exposta no Museo Nacionalle Romano – Palazzo Massimo, a estátua data, provavelmente, do primeiro século ac. O estado de preservação se deve a ter sido cuidadosamente enterrada, talvez como rito propiciatório, talvez para poupá-la quando os Godos, que atacavam Roma, destruíram o aqueduto que alimentava os Banhos.

A obra é intemporal. Quem quer que a veja identifica-se imediatamente com este lutador, com este trabalhador, com a ideia de que o esforço e a fadiga, o trabalho e o repouso não são exclusivos da nossa vida. Que existem desde sempre.

O que, estranhamente, não é verdade.

Produzir e repousar são formas recentes de inserção na ordem do mundo. E não são institutos universais. Esta mesma Roma que destruiu o Templo em Jerusalém e que viu raiar, padecer e depois florescer a seita judaica do cristianismo, que herdou a Arte grega, que conhecia a escravatura e a servidão, as celebrações e a orgia, não conheceu os feriados e as férias enquanto instituições destinadas ao descanso.

O repouso, no Ocidente, está associado a dois momentos que nada têm a ver com o trabalho: o do imobilismo perfeito após a Criação e o da fuga dos escravos do Egito.

Sua justificação é equívoca. Pois, se o Deus judaico-cristão trabalhou, não teria sido propriamente um deus, e se não trabalhou, porque razão teria descansado no sétimo dia?

O enigma sobre a cessação do trabalho cresce ao se considerar que a semana de sete dias é uma invenção hebraica, um fato histórico cultural. A semana é uma unidade de tempo que não corresponde a nenhum ciclo da natureza. Diferentemente do ano, que tem origem na evolução da Terra em torno do sol; do mês, que deriva da revolução da lua em torno da Terra; do dia, que decorre da rotação da Terra em torno dela mesma; a determinação da semana é sobrenatural: procede do repouso de Deus após os seis dias da Criação.

Na antiguidade hebraica, o shabbat foi vivido não como trégua do trabalho, mas como preparação para a vinda do messias.  A seita dos cristãos, para quem o messias já havia vindo, deslocou para o sétimo dia a suspensão do trabalho. O dies dominìcus, o dia do Senhor, foi, a partir de então, considerado o dia da ressurreição de Cristo.

A verdade é que o repouso, no sentido etimológico, científico e filosófico do conceito nunca chegou a existir no Ocidente. A conclusão pode ser extraída da obra do filósofo alemão Josef Pieper (1904-1997), que construiu um modelo de tipos de trabalho historiando exaustivamente a formação do conceito desde os pré-socráticos ao pensamento contemporâneo.

Adepto da rígida sistemática tomista, Pieper demonstrou que nenhum dos tipos ou formas de trabalhar é cessante. Isto é, que, no Ocidente não se concebe repouso eficaz.

Nós nos identificamos com o pugilista do Quirinal porque ele é como nós. Porque descansa para voltar ao seu trabalho, ao pugnax, ao combate. Compartilhamos o sentimento (pungens) daquele a quem é negada a inação, a quem não é dado abster-se.

De férias, no agradável museu italiano, também vivemos a pausa que precede o retorno ao trabalho. Por esta razão, passados milênios, mal suportamos a interrogação do seu olhar. Vazio.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Heymans, Elon D. (2013) The bronze boxer from the Quirinal revisited: a construction-related deposition of sculpture. Babesch 88. Doi: 10.2143/BAB. 88.0.2987083

Manguel, Alberto (2004). Uma história da leitura. Tradução de Paulo Maia Soares. São Paulo. Companhia das Letras.

Manguel, Alberto (2006). La bibliotèque, la nuit. Trad. Christine LeBoeuf. Paris. Éd. Actes du Sud
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