A prorrogação do emprego.

Trabalho & Produtividade.

Michael Sowa

Quando, duas décadas após sua partida para Tróia, Ulisses retornou à Itaca, poucos o reconheceram. No entanto, a sociedade, os hábitos, as tecnologias não haviam mudado. Passados três mil anos, o mesmo ocorreu com Edmond Dantès, o Conde de Monte-Cristo. 

A coincidência não é excepcional. O lento decorrer do tempo nestas ficções foi crível para as respectivas épocas. Para nós é difícil entender como a mutação das sociedades demorava. A aceleração veio com a guerra total, que animou a evolução científica. Veio com a técnica e com a tecnologia, que viraram de ponta-cabeça a vida social e as instituições.

A ruptura foi de tal ordem que não estávamos preparados. Que não estamos preparados. Reagimos, pessoas e sociedade, com insensatez. Beiramos a esquizofrenia coletiva. Queremos a novidade, mas rejeitamos o novo. Consumimos a aparência. Inventamos o desnecessário. Devoramos o supérfluo.

Exigimos a modernização, desde que as transformações institucionais sejam cosméticas. Queremos garantias de acesso ao trabalho, de segurança no emprego, de cobertura previdenciária. Mas recusamos aceitar que, na forma em que aspiramos, em certa medida conquistamos e nos acostumamos, estes institutos são inadequados, ineficientes e não se sustentam.

Os argumentos para a recusa em discutir o inevitável trânsito do emprego acobertam um egoísmo covarde: o de virar as costas para o fato de que não se trata de retirar nenhuma conquista de ninguém. Longe disto. Trata-se de estender direitos como férias, indenizações, aposentadorias, seguro saúde, etc. a todos.

Ulisses ainda manejou seu antigo arco contra os Pretendentes. Dantès duelou como quando era jovem. Já nós, passageiros estarrecidos da velocidade, tentamos, inutilmente, reagir. Idólatras do obsoleto, choramos a perda de coisas como a televisão, a educação presencial, a gravata, o telefone fixo, os vínculos trabalhistas permanentes.

A discussão tarda. É preciso drenar o abcesso. É preciso admitir que as inseguranças econômica e social estão aí para ficar, que o subemprego já é endêmico, que o seguro é insuficiente, que a tributação sobre a renda do trabalho se tornou draconiana, que as aposentadorias são ridiculamente baixas.

Autoportrait aux masques, 1899, James Ensor 

É preciso tirar a máscara, arrancar o véu, levantar a bola, enfrentar aqueles a quem interessa eludir a questão: o funcionário aterrorizado, o executivo decaído, o sindicalista domesticado, o empresário insensível, o político teúdo, o governante manteúdo.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Homero, (2013). Odisseia. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo. Cultrix
Dumas, Alexandre (2015). O conde de Monte Cristo. Tradução de André Telles e Rodrigo Lacerda. Rio de Janeiro.
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