Mântica heurística – Divinatória.

Epistemologia & Método.

Que a profecia, a adivinhação, o pressentimento e as demais categorias de impressionismo heurístico carecem de aceitação científica, é um fato. Que seguem sendo praticados nos laboratórios e nos centros de pesquisa, não resta dúvidas.

O recurso à adivinhação não é, como pode parecer, um ato estranho à busca do conhecimento. Houve, ou ainda há, uma disciplina capaz de prever o futuro: a mântica (gr. Mantiké téchnē, de mantikós,ê,ón, adivinho).

A mântica se divide em dois ramos: a de inspiração divinatória e a do deciframento dos signos. Na da adivinhação, a mântica de Apolo, a alma dos deuses se apossa do sujeito e fala por sua boca, como acontece no sonho ou na possessão. Na outra mântica, a de Hermes, existem duas vertentes. Na vertente profética o futuro é antecipado pela inspiração ou pela intuição. Na vertente interpretativa o futuro é conhecido pela decifração de signos, como o voo dos pássaros, a leitura dos fígados de bois, a quiromancia, etc.

Trataremos aqui da primeira: a mântica espiritual, divina ou de Apolo, que se ocupa dos presságios e dos vaticínios.

Na Antiguidade, Cícero (De divinatione) tratou da “arte do pressentimento e do conhecimento do porvir”. Discutiu como o pressentimento poderia ser uma “ars”, e como o que não é ainda fato pode ser objeto de uma “techné”. No Livro I, Quintus, o irmão de Cícero feito personagem, defende a conjectura “natural” das visões dos adivinhos e videntes como um método ou protocolo de pesquisa. Retoma a argumentação dos estoicos em favor da credibilidade da adivinhação. Evoca as capacidades constitutivas da intuição, da antecipação de consequências, da previsão dos efeitos de causas regulares e da comparação de semelhanças entre ocorrências.

No Livro II, Cícero rejeita sistematicamente estas ideias. Mas os argumentos de Quintus não são frágeis. Fundam-se na observação direta, na constância da experiência e da sensibilidade intuitiva. Estão na base de muitas filosofias antigas. Os neoplatônicos, os filósofos do Islã, dentre eles o grande Avicena (Abu ben Ali Sina, 980-1037) e os filósofos chineses do Li, sublinharam a natureza canônica e cosmológica do prognóstico intuitivo.

Na Idade Média, a política obscurantista da Igreja fez com que se condenasse estas tradições e saberes. Não obstante, alguns de seus traços se conservaram no pensamento filosófico e teológico. A mântica divinatória figura particularmente em Santo Agostinho, (De divinatione daemonium, livro I, VI), e nos corpora de conhecimento da astronomia e dos saberes náuticos que fundaram as grandes Descobertas. Ademais, foi aceita na metafísica, desde que corrigida por dois fundamentos (emendatio): a recensio, que e apoia em testemunhos, e a divinatio, que completa e corrige mediante conjetura (ope ingenii).

No Renascimento, a ars divinatione evoluiu, para a construção de uma lógica específica de caráter político. Serviu para dar credibilidade às escolhas binárias sobre as condutas: crer ou não em Deus, ir ou não à guerra, etc. Ante o avanço da ciência, e abalada pelo discurso racionalista, a mântica divinatória se estreitou até se reduzir à heurística de tipo oracular, enigmática. O que restou foi a função superior, religiosa, conhecida como a “divina loucura de Apolo”, absorvida pela espiritualidade pura, visionária dos iluminados, dos angelicais e da santidade.

Embora o protocolo abraçado por Quintus seja formalmente inaceitável pela ciência contemporânea, a mântica divinatória continua a ser largamente utilizada. Nunca deixou de ser exercida como ramo da heurística das relações naturais não descritas ou descritíveis por leis. É parte da reflexão antepredicativa, que Hegel descreveu como a capacidade de “sentir que se encontra uma significação profunda no murmúrio de uma fonte” (2001; 253).

Aquilo que Cícero condenou na argumentação de Quintus: o “saber sem saber porque se sabe” segue aceito em todos os quadrantes. As epistemologias históricas podem ser consideradas como prática de “adivinhação verossímil” do que aconteceu em relação ao presente, e as epistemologias indutivas de caráter estatístico, são, efetivamente, “adivinhações controladas” sobre a o futuro em relação ao presente.

 

O alargamento de competências cognitivas por uma técnica que não se funda em um sistema, mas na intuição e na antecipação dos sentidos é francamente exercitado. Está presente na prática psi, como capacidade constitutiva da intuição; nas ciências sócio-humanas, como antecipação de consequências; nas ciências naturais, como previsão dos efeitos de causas regulares; na política comparada, como confrontação de semelhanças entre ocorrências; no historicismo em geral, como determinismo; na economia, como presunção do ceteris paribus.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Cheng, Anne (2016). História do Pensamento Chinês. Tradução: Gentil Avelino Titton. Petrópolis. Editora Vozes

Cicero, Marco Túlio (s/d). De divinatione in Delphi Complete Works of Cicero (Illustrated) (Delphi Ancient Classics Book 23) (English Edition) [EBook Kindle]

Dupuy, Jean Pierre (2013). Chorar as mortes que virão: por um catastrofismo ilustrado. Tradução de Ana Szapiro; in Adauto Novaes (org.). Mutações: o futuro não é mais o que era; São Paulo; Edições SESC SP.

Fraile, Guillermo (1975) Historia de la filosofía: filosofía judía y musulmana; alta escolástica: desarrollo y decadencia. (Avicena; 57). Madrid. La Editorial Catolica.

Hegel, Georg Wilhem (2001) The philosophy of history. Translator, J. Sibree. Ontario. Canada. Batoche Books.

Sto. Agostinho, (De divinatione daemonium,) in The Complete Works of Saint Augustine: The Confessions, On Grace and Free Will, The City of God, On Christian Doctrine, Expositions on the Book Of Psalms, ... Active Table of Contents) (English Edition) eBook Kindle

Thouard, Denis (2015) Divination, diviner, in in Berner, Christian & Thouard, Denis (direction). L’interprétation : un dictionnaire philosophique. Traduit de l’allemand par Christian Berner. Paris. Librairie Philosophique J. Vrin.
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