Mauss – A dívida e a dádiva

Trabalho.

O ano de 2001 passou. As odisseias interplanetárias não ocorreram. O ano 1020 da Federação Galáctica não  se sabe quando ocorrerá. Ambas as datas têm em comum o fato de que no irrealizado mundo de Arthur Clarke e na colossal trilogia “Fundação”, de Isaac Asimov, os personagens viveriam do seu trabalho.

Por que esta falta de imaginação? Por que a nossa fantasia não pode conceber um mundo em que o trabalho não exista?

O trabalho dependente está se tornando desnecessário. Em alguns países nórdicos já é facultativo. É preocupante que não tenhamos um plano para o seu desaparecimento. Parece claro que a competição entre o ser humano e a máquina anulará a possibilidade do trabalho na esfera da coexistência e o liquida na esfera da sucessão.

Porque nos recusamos a aceitar a gigantesca lesão no tecido social que se avizinha?

E, no entanto, talvez pudéssemos aliviar o trauma nos preparando para a inevitável desvalorização econômica do trabalho comum.

Se a elisão radical do esforço produtivo não é nem psiquicamente nem culturalmente admissível, a solução talvez possa estar na restauração da prática ancestral da partilha desinteressada. Na alteração do eixo indutor do trabalho da remuneração para a retribuição. Na troca do modelo de dívida para o de dádiva.

Há quase um século, Marcel Mauss explicou a diferença entre as duas ordens. Liquidar uma dívida é se ver livre de uma coação que admitimos ao contraí-la. Pagar uma dádiva é doar o que recebemos a quem nos deu ou a outros. A dádiva dispensa a contrapartida.

O preço da hospedagem é do campo da dívida, o preço da hospitalidade é do campo da dádiva. Ofereço hospitalidade porque um dia me ofereceram. Não ofereço hospedagem porque ninguém oferece. Não transmitirei aos meus filhos o dever da hospitalidade porque o desconheço.

O exemplo não é estranho à sociedade contemporânea. A hospitalidade ainda é uma prática comum em muitas regiões. O mesmo acontece com o amor de produzir, com a satisfação do fazer bem feito, com a recompensa do simples reconhecimento, como ocorre, por exemplo, com os primeiros trabalhadores da street-art.

Street Art Banksy

Banksy

Não trabalhamos desinteressadamente porque no mundo em que vivemos isto não faz sentido. Trabalhamos porque necessitamos do trabalho para viver. Esta mentalidade perdura, enquanto a economia já dá sinal de que a necessidade caduca.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Mauss, Marcel (2003). Sociologia e Antropologia. Tradução de Paulo Neves. São Paulo. Cosac e Naif.

Mauss, Marcel (2001). Ensaios de sociologia. Tradução de Luiz João Gaio e J. Guinsburg. São Paulo. Editora Perspectiva
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