Heurística – Fantasia, o triunfo de Averróis.

Epistemologia.

No sexto volume do Kulliyat, Averróis (Córdoba, 1126 – Marraquexe, 1198) descreveu propriedades medicinais que só foram redescobertas oito séculos depois de sua morte. Há um tópico sobre as virtudes do azeite feito de “azeitonas puras e não fervidas” cuja descrição é idêntica a das publicações contemporâneas.

Isto foi possível graças à “phantasia”, uma habilidade de produção de descobertas perdida, que hoje se procura recuperar.

As fantasias são apresentações em potência de ideais e imagens sem precedentes. Diferem da imaginação, que é estéril, capaz unicamente de combinações extrínsecas. A fantasia é inteiramente intrínseca e particular.

A noção consta dos clássicos gregos. Mas, diferentemente do proposto por Averróis, para os gregos o termo conotou a e-laboração (trabalhar sobre) as aparições (phantasmatas). Nem mesmo Aristóteles pode ir além da imagens-reprodução. Limitou-se a escrever que as fantasias não são percepções ou sentimentos, mas devaneios difusos, como as visões que se têm durante o sono. Negou que tivessem valor cognitivo.

A contestação infame da racionalidade heurística de Averróis prosseguiu até o século em curso. Vários afrescos e retábulos que representam o Triunfo de São Tomás de Aquino sobre os hereges mostram a subjugação da phantasia. Não passam de matéria de propaganda. Havendo São Tomás falhado em invalidar a tese de Averróis sobre a fusão do entendimento individual em um entendimento único, não restou à cristandade outro recurso do que disfarçar festivamente a derrota.

A verdade é que ninguém em Roma, ou durante a baixa e alta Idade Média, ou no Renascimento – nem São Tomás, Erasmo, ou Montaigne – pode acolher a vis imaginativa como elemento da razão. Ter-se-ia que admitir que o mundo não é uma emanação de Deus, mas existe desde sempre, o que colocaria uma entidade precedente ao Criador, e anularia o papel pontifical (de administração da ponte com o Deus) da Igreja.

A fantasia não pode ser aceita pelos modernos porque evidencia que o ato criador não é produto exclusivo da Razão. O espírito racional constrói a realidade pela ciência e essa consiste essencialmente não em elaborar conceitos, mas em julgar. Por isto, embora Descartes coloque a fantasia entre as faculdades da alma, ao lado do entendimento, da vontade, do senso comum, e da memória, ressalva tratar-se de uma arte inapreensível.

A fantasia também não pode ser aceita pelos modernos tardios porque tem a criação como fruto de uma experiencia incontrolável. Mesmo Kant, que tanto queria ousar, esquivou-se da questão declarando timidamente que a imaginação quando produz ideias e imagens sem ter a intenção de fazê-lo é perigosa. A fantasia, disse, brinca com o mundo, mas às vezes brinca conosco.

A fantasia foi desprezada pelos analíticos porque não cala sobre o que não pode ser dito. E é enigmática. Não é percepção – em que há crença e há opinião. Parece ser mera sensação, mas não pode ser, porque não é situada (como o tato, o paladar, …). Quando se tenta voltar a Aristóteles e dar a fantasia como algo similar ao sonho, vê-se logo que não é um sonho, pois que uma produção livre do intelecto que não substitui, senão que antecipa.

A fantasia foi distorcida pela fenomenologia porque o seu objeto antecede a manifestação. O termo phantasie de Husserl designa a representação pura de alguma coisa. Refere tanto ao que temos diante dos olhos como ao que temos na consciência. Não é nem apreensão, nem recordação, mas algo em que ainda não decidimos se cremos. Não é, como em Averróis, uma ideia ou imagem gerada do nada.

Escorraçada da filosofia ocidental, a fantasia nunca deixou de ser um fator heurístico, um elemento da poeïsis, da criação. A própria “…razão – escreveu Valéry em uma carta a Alain – quer que o poeta prefira a rima à razão. … A ideia entra por esta porta ditosa” (Steiner, 2012). O mais das vezes os poetas, os pintores, os músicos, os inventores tiram da rima, da textura, do improviso a figura, a melodia, a lógica. Deixando o espirito livre, surge o inaudito, o original.

A tentativa constante de abrir o espírito pela meditação se mostrou inoperante porque a meditação reproduz, não cria. As tentativas de abrir o espírito mediante drogas como o ópio, o LSD, a mescalina e a psilocibina, ao contrário do que se propaga, funcionaram. Mas, depreende-se do mar de pesquisas sobre o tema, que a fantasia provocada artificialmente rende tão pouco – não transforma tolos em seres criativos –, e gera tais efeitos colaterais que não se justifica.

As fantasias são um fenômeno mental que tem valor cognitivo desde que, contraditoriamente, esquizofrenicamente, tenha-se a disciplina suficiente para abandonar toda a disciplina. Não há método para fantasiar, apenas meios, e estes meios devem ser redescobertos.

Quando, na sua Córdoba natal, o corpo de Abu al-Walid Muhammad ibn Ahmad ibn Muhammad ibn Rushd, dito Averróis, foi levado à sepultura, encabeçava o séquito um corcel ajaezado. Em um flanco ia o corpo do Andaluz, no outro, à contrapeso, um baú contendo a soma dos livros que havia escrito. Nada mais ia com eles. A fantasia criativa perdera seu mestre.

UTILIZE E CITE A FONTE.

 

Aristotle (s/d). Delphi Complete Works of Aristotle (Illustrated) (Delphi Ancient Classics Book 11) (English Edition) eBook Kindle. [De Anima, III, 3, 427 b 10 e] [Do Sono e da Vigília III, 461 a, 2 e ss.]

Averroes, Kulliyat, Colliget, Libro sobre las generalidades de la Medicina ou, simplesmente, “Generalidades”, apud, Dueñas, Ángel Fernández (1998). Averroes, el hombre. Conferencia de la Real Academia de Córdoba por ocasión del octavo centenario de la muerte de Averroes. http://helvia.uco.es/xmlui/bitstream/handle/10396/9000/due%C3%B1as19.pdf?sequence=1

Brenet, Jean-Baptiste (2017). Je fantasme. Averroès et l’espace potentiel. Paris. Éditions Verdier.

Descartes, René (1989). Regras Para a Direção do Espírito [ XII, I, 1]. Tradução de João Gama. Lisboa. Edições 70.

Fraile, Guillermo (1975). Historia de la filosofía - Filosofía judía y musulmana – Alta escolástica: desarrollo y decadencia. Madrid. Biblioteca de Autores Cristianos

Husserl (1980) Husserliana XXIII: Phantasie, Bildbewusstsein, Erinnerung [Imagination, image consciousness, and memory] (ed. E. Marbach). The Hague: Martinus Nijhoff (original works from the Husserl estate)

Kant, Immanuel (2006) Antropologia de um Ponto de Vista Pragmático [I, § 28]. Tradução de Célia Martins. São Paulo. Iluminuras. (pag. 80)

Steiner, George (2012). La poesia del pensamento. Trad. De Maria Condor; Madrid; Ediciones Siruela [Kindle edition]. Pos. 1264.
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