Pensar em chinês.

Perplexidades.

Do que se depreende das rodadas de discussões sobre a economia internacional, é possível que a China venha a reduzir drasticamente a sua atividade econômica.

Alguns analistas duvidam desta possibilidade, uma vez que esta redução poderia gerar desemprego. Mas não é assim que pensam os chineses. Por duas razões. A primeira é cultural. O valor que emprestam aos vínculos empregatícios e ao trabalho em si mesmo é diferente da nossa forma de ver. A segunda é da esfera interna da sua economia. Com a população jovem encolhendo e a população de idosos crescendo, em breve pode haver mais empregos do que candidatos a emprego. Daí o fim da política de filho único e de outras iniciativas congêneres. Mas todas levarão longos anos chineses para surtir algum efeito.

Tudo que acontece na e com a China repercute no mundo, e, claro, no Brasil. Ante o estado de perplexa hesitação demonstrado pelos analistas econômicos em relação à China, o recomendável neste momento é dar um passo atrás e procurar apreender a forma de pensar chinesa. O trabalho do sinólogo francês François Jullien ( (2017) L’archipel des idées de François Jullien. Paris. Editions de la Maison des Sciences de l’Homme) tem a dupla virtude de esclarecer como pensam os chineses e de mostrar os pontos cegos e as lacunas na forma de pensar no Ocidente.

Um exemplo desta dupla implicação: o pensamento chinês é inteiramente desinteressado de Deus, o que ajuda a entender a conduta em relação ao Nepal e ao Dalai Lama e o distanciamento em relação à efervescência no mundo islâmico. Ajuda, também a compreender o enorme desperdício de tempo e energia com a discussão teológica-moral no Ocidente. O sacro e o interdito são diferentes para eles. Fazem coisas que não faríamos – como os fuzilamentos – e não fazem coisas que fazemos – como a leniência com a corrupção e os corruptos.

Outro exemplo: a noção central da filosofia desde o período grego clássico, o logos, nas acepções, discursiva e reflexiva, é ausente do pensamento chinês, orientado para a atribuição de sentido e a racionalidade dos processos. Ao contrário do que fazemos, os chineses não definem os conceitos, exemplificam.

Este contraste nos ajuda a entender que a conduta dos chineses na política e na economia não está centrada, como a nossa, no princípio de não-contradição. Eles operam sem dificuldades com indefinições, superposições e guinadas bruscas de políticas e de estratégias. A nossa fixação nos eixos verdade /essência & entidade / identidade, e os decorrentes entraves de exigir definições precisas, de dar preferência a justaposições e do temor paralisante de realizar movimentos súbitos na condução da economia, são estranhas para os chineses.

Um dos economistas mais influentes da China, Cheng Siwei, que faleceu em Pequim há pouco, predisse para breve a entrada na “quarta fase” nas relações econômicas chinesas. Na primeira fase, quando Deng Xiaoping abriu o país, a China foi um mercado consumidor enorme. Na segunda fase, o país começou a industrializar tudo que podia e tornou-se um forte concorrente das economias ocidentais. Na terceira fase, fortaleceu e sofisticou a posição industrial, atraindo empresas ocidentais para produzir na China. Na quarta fase, o alvo passaria a ser a inovação.

O que vem a ser “inovação” na perspectiva chinesa? No Ocidente se considera inovação qualquer elemento ou procedimento que surja em um processo produtivo ou de geração de serviços. Supondo que Siwei atribua a mesma conotação ao termo – o que não é garantido – quais elementos, quais procedimentos estarão em curso de mudança na China? A resposta vale bem mais do que um bilhão de dólares.

Até agora o mercado mundial absorveu razoavelmente as oscilações do crescimento chinês. Mas devemos nos preparar para o que reserva o futuro. Isto significa, em primeiro lugar, acompanhar os seus movimentos à luz do que dizem os sinólogos profissionais, evitando as superficialidades, as adivinhações e as antecipações dos analistas mais ligeiros. Em segundo lugar – e é o que se tem para o momento – devemos nos preparar para o imprevisto. Devemos, literalmente, esperar o inesperado.

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