Heurística – Conhecimento Tácito e abertura.

Epistemologia & Método.

Deve-se à Michael Polanyi (1891 – 1976), físico e psicólogo húngaro, a concepção da figura que denominou de “conhecimento tácito”: um saber que é informal, assistemático e quase incomunicável.

O conceito tem duas fontes. A primeira é a assertiva de Maslow de que não há substituto para a experiência pessoal. A segunda, é a proposta da Teoria da Forma, da Gestalt, de que a experiência é constituída por processos dinâmicos, organizados segundo princípios estruturais autônomos, isto é, que os indivíduos podem conhecer a totalidade de uma determinação sem interpretarem seus detalhes.

A ideia de conhecimento tácito é instigante e útil, mas deficitária em vários aspectos. São quatro as fraquezas principais da abordagem de Polanyi: o desconhecimento dos que o precederam, a ignorância da experiência mental, o pressuposto da unicidade da mente e o desprezo pela ingerência do meio sobre os indivíduos.

Como Maslow, que se apropriou da hierarquia das necessidades dos estoicos, Polanyi parece ignorar todo o corpora da heurística filosófica. Cria terminologias inadequadas para noções confusas, como o termo focal, para significar implícito (Moustakas), desconhece avanços da própria Gestaltpsychologie, que, contra o associacionismo neurofisiológico, comprovou empiricamente que o cérebro, ao invés de reagir ante estímulos reciprocamente independentes, funciona como sistema total e dinâmico.

Polanyi ignora que experimentamos objetos externos, mas, também objetos internos à nós mesmos. A experiência é aquilo que a consciência conhece pelos sentidos. Existem experiências que são perceptos de eventos e de situações externos a consciência, e existem experiências que são sensações, como a recordação, o tédio, a saudade, etc. A recordação da dor não é o mesmo objeto do que a dor, o entediante não é o mesmo objeto que a sensação de tédio, e assim por diante.

O pressuposto da unicidade da mente já havia caducado na época de Polanyi. Hoje sabemos que um erudito ocidental e um sábio pajé da Amazônia não processam as informações na mesma maneira nem na mesma ordem, o que não os torna menos inteligentes ou menos dotados do domínio racional do meio em que vivem e operam.

A intervenção da diversidade cultural sobre a forma de perceber e sentir as diferenças de faculdades e sensibilidade dos indivíduos imersos na mesma cultura invalidam a universalidade das fórmulas e dos processos – sequência de operações – propostas por Polanyi e pelos autores da mesma escola e época de pensamento.

Dito isto, cabe ressaltar a utilidade do conceito de conhecimento tácito e indagar como podemos desenvolver ou, pelo menos, fazer uso heurístico dele.

A palavra “tácito”, lat. tacìtus,a,um, significa quieto. A tomada tácita de consciência vem das aparências, das sensações quais não nos damos conta. O conhecimento tácito explicaria um fenômeno que todo pesquisador experimentou: o Einsicht, comumente chamado pelo termo inglês insight, e que significa a iluminação imediata (Köhler). O insight é posterior à intuição, corresponde ao episódio cognitivo no qual a relação e a ligação de eventos psíquicos conferem forma à figura e fazem com que o sujeito a compreenda. São palpites, presságios, pressentimentos, algo que se sente antes de acontecer e que não se sabe porque se sente.

Bleak surrealistic paintings by Russian artist Andrew Ferez - 29

Estas modalidades de cognição frequentemente são abafadas pelo formalismo das instituições e pelo temor do ridículo. Mas têm um fundamento tácito com forte valor heurístico. Não é o caso de evitá-las ou escondê-las, mas de fazê-las emergir e de articulá-las. De outra forma, o processo de conferir sentido ao real encalhará na repetição do já sabido.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Köhler  Wolfgang (1969). The task of gestalt psychology. Princeton. Princeton University Press.

Maslow, Abraham H. (1970). Motivation and personality. New York. Harper and Row.

Moustakas, Clark (1990). Heuristic research: design, methodology, and applications. California. Sage Publications.

Polanyi, Michael (1958). Personal knowledge: Towards a post-critical philosophy. London. Routledge & Kegan Paul.

Polanyi, Michael (1966). The tacit dimension. New York. Doubleday.
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