Camus: o trabalho e o absurdo.

Trabalho.

Um mundo que se pode explicar, mesmo que seja mediante raciocínios errôneos, é um mundo familiar. Mas um mundo em que não haja esclarecimentos, lembranças e ilusões, nos parece absurdo. O sentimento do absurdo esvazia tudo o que encontra, torna tudo irrelevante. Este é um dos pontos que Albert Camus (1913-1960) se apoia para explicar a retirada de vida.

Estamos acostumados ao nosso trabalho. Mas quando o trabalho não encerra mais significados nem projeta utopias, ingressamos na esfera do absurdo. Constatamos que o trabalhar se escora somente no hábito, na necessidade, no receito e no conformismo.

Porque, então, não deixamos de fazer o que fazíamos. Porque não nos retiramos do trabalho absurdo?

A explicação é evidente. Da mesma forma que não nos suicidamos porque encontramos uma razão de viver maior do que a razão para morrer, não abandonamos o trabalho porque encontramos um motivo para continuar trabalhando maior do que a razão para arriscar uma alternativa.

O motivo mais frequente é o da sobrevivência material. Começamos a viver antes de começarmos a pensar, e começamos a pensar antes de começarmos a trabalhar. Trabalhamos para alimentar o corpo que sustenta a mente. O corpo e a mente recuam ante a aniquilação. Querem, por todos e meios e forças, continuar vivendo.

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Não existem muitas outras razões. Há os que se recusam a pensar no absurdo do apego ao trabalho, como há os que não chegam a nenhuma conclusão. Há os que aceitam viver no limbo das convenções, como há os que encontram no trabalho algo verdadeiro e profundo. Estes serão minoria, e um minoria ínfima. Os demais trabalham sob um céu sufocante, sob uma angústia corrosiva.

Os seres pensantes são moralmente obrigados a decidir sobre sair ou ficar. Do trabalho e da vida. A dificuldade é saber como se sai e como se fica.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Camus, Albert (2014). O mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. Rio de Janeiro. Best Bolso.

Camus, Albert, (2009). O homem revoltado. Tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro. Record.
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1 comentário

  1. Como dizia meu avô Mário (n-1893), estamos num “baile” (compulsório), quer queiramos ou não. Se ficamos temos que saber os motivos (e tem que valer a pena), se quisermos sair temos que decidir quando e de que forma (pois não há mais otivação par aficar).
    Em paralelo, na reflexão do sexagenário, como Sísifo, recarregando essa pedra pesada e inútil, ainda encontramos o ABSURDO cotidiano da cidade, do estado, do país e do mundo…
    É prá acomodar e conviver ou prá racionalizar e desistir?

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