Mântica heurística – hermenêutica.

Epistemologia.

A necessidade de crer supera o desejo de saber. Nisto reside a fortuna da mântica, a disciplina heurística da antevisão.

A mântica tem duas vertentes: a divinatória e a interpretativa. A mântica de Apolo e a mântica de Hermes. Tratamos da primeira anteriormente. Agora examinaremos a face hermenêutica da segunda. A que se ocupa do deciframento e da signalética.

A previsão hermenêutica é aplicada às experiências simbólicas, aos ensaios com fármacos, à medição das marés, ao movimento dos astros e às estatísticas. Articula os saberes por comparação de semelhanças, regularidades e permanências. Opera no nível da magia (astromancia, nigromancia, etc.), e no nível da razão (o estudo da reação dos animais na prevenção de catástrofes, os cálculos de possibilidades).

Esta mântica persiste ao longo dos séculos, se não como ciência posta, pelo menos como imperativo antropológico: o da necessidade humana de ultrapassar as relações causais ao estabelecer analogias e prever consequências. A hermenêutica de Hermes descobre pela aplicação de técnicas de recuperação e de reconstituição de acontecimentos. Repousa sobre o exame de quantidades, indicadores, índices, sinais e vestígios.

A forma de predição contemporânea, o probabilismo, integra seu corpus. E isto se demonstra: imaginemos uma urna contendo bolas pretas e brancas, na relação de duas pretas para cada branca. Tomamos uma bola ao acaso e devolvemos à urna. Trata-se de apostar na cor da bola. Probabilisticamente, apostamos na preta. Será preciso apostar sempre na preta, embora saibamos, com certeza científica, que, em média, em um terço dos casos estaremos condenados a errar (Dupuy).

A mântica de Hermes é formalmente negada. A academia prefere esquecer que as projeções de situações futuras e os cálculos das probabilidades são suposições com “graus de confiabilidade” muito amplos. Prefere omitir que desde a equipossibilidade de Laplace até as teorias subjetiva de Savage e axiomática de Kolmogorov, a regra é que uma “função de crença” satisfaça os requisitos de racionalidade subjetiva.

Ainda que seja inegável a existência de alguma lógica na presunção conjectural (Scholz) ou na formação de inferências abdutivas (Eco), a instituição acadêmica finge não saber que não é a racionalidade, mas a indiscrição hermética que anima os cientistas a buscarem desvendar signos ocultos e desconexos sobre o que está por vir.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Dupuy, Jean-Pierre (2004) Pour un catastrophisme éclairé. Quand l'impossible est certain. Paris. Seuil.

Eco, Umberto (1994) Les limites de l'interprétation. Paris. Biblio Essais – Le Libre de Poche.

Kolmogorov, Andrei N. (1956) Foundations of the theory of probability. Michigan. Chelsea Pu. Co. University of Michigan.

Mijolla-Mellor, Sophie de (2004). Le besoin de croire, Paris, Dunod.

Savage, Leonard Jimmie (1972) Foundations of statistics. New York. Dover Publications.
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